Questão 135 do ENEM 2010Linguagens

ENEM 2010Linguagens1ª aplicação

Fora da ordem

Em 1588, o engenheiro militar italiano Agostinho Romelli publicou Le Diverse et Artificiose Machine, no qual descrevia uma máquina de ler livros. Montada para girar verticalmente, como uma roda de hamster, a  invenção permitia que o leitor fosse de um texto ao outro sem se levantar de sua cadeira.

Hoje podemos alternar entre documentos com muito mais facilidade – um clique no mouse é suficiente para acessarmos imagens, textos, vídeos e sons instantaneamente. Para isso, usamos o computador, e  principalmente a internet – tecnologias que não estavam disponíveis no Renascimento, época em que Romelli viveu.

BERCITTO, D. Revista Língua Portuguesa. Ano II. N°14.

O inventor italiano antecipou, no século XVI, um dos princípios definidores do hipertexto: a quebra de linearidade na leitura e a possibilidade de acesso ao texto conforme o interesse do leitor. Além de ser característica essencial da internet, do ponto de vista da produção do texto, a hipertextualidade se manifesta  também em textos impressos, como
dicionários, pois a forma do texto dá liberdade de acesso à informação.
Resposta correta
B
documentários, pois o autor faz uma seleção dos fatos e das imagens.
C
relatos pessoais, pois o narrador apresenta sua percepção dos fatos.
D
editoriais, pois o editorialista faz uma abordagem detalhada dos fatos.
E
romances românticos, pois os eventos ocorrem em diversos cenários.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos primeiro entender o conceito central apresentado no enunciado: a hipertextualidade. O próprio texto nos dá a definição ao falar sobre a "quebra de linearidade na leitura" e a "possibilidade de acesso ao texto conforme o interesse do leitor".

Na leitura tradicional, chamada de leitura linear, nós seguimos uma ordem predefinida pelo autor: começamos na primeira página e vamos avançando sequencialmente até o final. É assim que lemos a maioria dos romances, contos, notícias e redações.

Já no hipertexto, essa lógica é rompida. O leitor ganha a liberdade de escolher o seu próprio caminho, "saltando" de um ponto a outro de acordo com o que lhe interessa no momento. A internet é o maior exemplo disso: navegamos por meio de links, abrindo abas e pulando de um site para outro.

O desafio da questão é encontrar um gênero textual impresso que funcione com essa mesma lógica de "pular para o que me interessa", sem a necessidade de ser lido do começo ao fim.

Vamos analisar as alternativas:

  • Romances, relatos pessoais e editoriais (Alternativas C, D e E): Esses gêneros são fundamentalmente lineares. Para que a história, a experiência ou a argumentação façam sentido, você precisa acompanhar a sequência proposta pelo autor. Ler um romance de trás para frente ou pulando capítulos aleatórios comprometeria o entendimento da obra.
  • Documentários (Alternativa B): Embora a alternativa fale de "seleção de fatos e imagens", um documentário (seja em vídeo ou adaptado para um formato impresso, como um livro-reportagem) também é construído para apresentar uma narrativa coesa, que geralmente é consumida de forma linear.
  • Dicionários (Alternativa A): Pense em como você usa um dicionário. Ninguém abre na letra "A" e lê todas as páginas até chegar à letra "Z". Se você quer saber o significado da palavra "hipertexto", você vai direto à letra "H" e procura especificamente por esse verbete. A ordem alfabética é apenas uma ferramenta de organização para facilitar esse acesso direto. O dicionário foi projetado exatamente para a consulta pontual, dando ao leitor total liberdade para acessar a informação de forma não sequencial.

Portanto, o dicionário é o exemplo perfeito de hipertextualidade no mundo dos textos impressos, pois sua estrutura permite que o leitor quebre a linearidade e vá direto ao ponto de seu interesse.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2010 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.