Questão 22 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens1ª aplicação

Galinha cega

O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, aí… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.
Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.

GUIMARAENS, J. A. Contos e novelas. Rio de Janeiro: Imago, 1976 (fragmento).

Ao apresentar uma cena em que um menino atira milho às galinhas e observa com atenção uma delas, o narrador explora um recurso que conduz a uma expressividade fundamentada na
A
captura de elementos da vida rural, de feições peculiares.
B
caracterização de um quintal de sítio, espaço de descobertas.
C
confusão intencional da marcação do tempo, centrado na infância.
apropriação de diferentes pontos de vista, incorporados afetivamente.
Resposta correta
E
fragmentação do conflito gerador, distendido como apoio à emotividade.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o foco narrativo e a forma como o narrador constrói a cena apresentada no fragmento.

Logo no início do texto, o narrador nos aproxima da perspectiva do dono da galinha. Acompanhamos a sua preocupação e as suas hipóteses para a desorientação do animal, o que fica evidente em trechos que reproduzem o seu pensamento de forma indireta livre, como em: "Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça...". Aqui, temos um olhar humano, carregado de afeto e preocupação com a "branquinha".

Na sequência, o narrador faz um movimento muito interessante: ele desloca o foco narrativo para a própria galinha. Passamos a "ver" (ou deixar de ver) o mundo através da percepção sensorial do animal que está perdendo a visão: "Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras?". Novamente, nota-se uma forte carga afetiva, marcada pelo uso do termo "coitada".

Esse recurso de alternar as perspectivas — mostrando primeiro a aflição do menino que tenta entender o que se passa e, depois, a confusão sensorial e inocente da própria galinha — é o que confere grande expressividade e emotividade ao texto.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta porque, embora haja elementos rurais, eles são apenas o pano de fundo, não o recurso central da expressividade.
  • B está incorreta pelo mesmo motivo: o quintal é apenas o cenário onde a ação ocorre.
  • C está incorreta, pois a narrativa segue uma ordem cronológica linear, sem confusão na marcação do tempo.
  • D é a correta. O narrador se apropria de diferentes pontos de vista (o do dono e o da galinha) e os incorpora de maneira afetiva, gerando empatia no leitor.
  • E está incorreta porque o conflito (a cegueira da galinha) é o eixo central e contínuo da narrativa, não havendo fragmentação do mesmo.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.