Grupos de proteção ao meio ambiente conseguem resgatar muitas aves aquáticas vítimas de vazamentos de petróleo. Essas aves são lavadas com água e detergente neutro para a retirada completa do óleo de seu corpo e, posteriormente, são aquecidas, medicadas, desintoxicadas e alimentadas. Mesmo após esses cuidados, o retorno ao ambiente não pode ser imediato, pois elas precisam recuperar a capacidade de flutuação.
Questão 104 do ENEM 2020 — Ciências da Natureza
Resolução comentada
Para entender essa questão, precisamos analisar o mecanismo natural que permite às aves aquáticas flutuar e se manterem secas mesmo passando a maior parte do tempo na água.
Essas aves possuem uma glândula localizada na base da cauda chamada glândula uropigial. Essa glândula é responsável por secretar uma substância oleosa e cerosa. Constantemente, a ave utiliza o bico para coletar essa secreção e espalhá-la por todas as suas penas, criando uma eficiente camada impermeabilizante.
Essa camada de cera é fundamental por dois motivos principais:
- Flutuação: Ao tornar as penas impermeáveis, a água não consegue encharcá-las. Isso permite que uma espessa camada de ar fique aprisionada entre as penas e o corpo da ave. Como o ar possui uma densidade muito menor que a da água, essa camada de ar diminui a densidade média do animal, funcionando como uma verdadeira boia.
- Isolamento térmico: O ar aprisionado é um excelente isolante térmico, impedindo que a ave perca calor para a água fria e ajudando na manutenção da sua temperatura corporal (homeotermia).
Quando ocorre um vazamento de petróleo, o óleo cru gruda nas penas, desorganizando sua estrutura e expulsando a camada de ar. A ave perde a capacidade de flutuar e de se manter aquecida. Para salvar o animal, as equipes de resgate utilizam detergente neutro.
Quimicamente, o detergente é uma substância tensoativa (anfifílica), possuindo uma parte polar (que interage com a água) e uma parte apolar (que interage com óleos e gorduras). Ele é excelente para quebrar e remover o petróleo, mas traz um efeito colateral inevitável: por ser um desengordurante, o detergente também remove a cera natural impermeabilizante produzida pela glândula uropigial.
Após a lavagem, a ave está limpa e livre do petróleo, mas suas penas estão completamente desprotegidas. Se ela fosse devolvida imediatamente ao mar, a água penetraria em suas penas, ela ficaria encharcada, pesada (afundando) e morreria de frio. Portanto, o período de recuperação em cativeiro é estritamente necessário para que a ave tenha tempo de produzir e espalhar novamente essa cera sobre as penas, restaurando sua impermeabilidade.
Analisando as alternativas:
- A) recuperar o tônus muscular: Incorreta. A flutuação é uma questão de densidade e empuxo, não de força muscular.
- B) restaurar a massa corporal: Incorreta. A massa corporal por si só não garante a flutuação; o que importa é a relação entre massa e volume (densidade), que é otimizada pelo ar retido nas penas.
- C) substituir as penas danificadas: Incorreta. O processo de lavagem visa justamente salvar as penas. A troca de penas (muda) é um processo natural e demorado, não sendo a solução imediata para o problema.
- D) restabelecer a capacidade de homeotermia: Incorreta. A homeotermia (manutenção da temperatura) é uma consequência da impermeabilização das penas, assim como a flutuação. Ela é o efeito, não a causa.
- E) refazer a camada de cera impermeabilizante das penas: Correta. É a ausência dessa cera (removida pelo detergente) que impede a ave de reter ar nas penas e, consequentemente, de flutuar.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.