Questão 26 do ENEM 2010Ciências Humanas

ENEM 2010Ciências Humanas1ª aplicação

I — Para consolidar-se como governo, a República precisava eliminar as arestas, conciliar-se com o passado monarquista, incorporar distintas vertentes do republicanismo. Tiradentes não deveria ser visto como herói republicano radical, mas sim como herói cívico-religioso, como mártir, integrador, portador da imagem do povo inteiro.

CARVALHO, J. M. C. A formação das almas: O imaginário da República no Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1990

I — Ei-lo, o gigante da praça, / O Cristo da multidão!

É Tiradentes quem passa / Deixem passar o Titão.

ALVES, C. Gonzaga ou a revolução de Minas. In: CARVALHO, J. M. C. A formação das almas.
O imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

A 1ª República brasileira, nos seus primórdios, precisava constituir uma figura heroica capaz de congregar diferenças e sustentar simbolicamente o novo regime. Optando pela figura de Tiradentes, deixou de lado figuras como Frei Caneca ou Bento Gonçalves. A transformação do inconfidente em herói nacional evidencia que o esforço de construção de um simbolismo por parte da República estava relacionado
A
ao caráter nacionalista e republicano da Inconfidência, evidenciado nas ideias e na atuação de Tiradentes.
B
à identificação da Conjuração Mineira como o movimento precursor do positivismo brasileiro.
ao fato de a proclamação da República ter sido um movimento de poucas raízes populares, que precisava de legitimação.
Resposta correta
D
à semelhança física entre Tiradentes e Jesus, que proporcionaria, a um povo católico como o brasileiro, uma fácil identificação.
E
ao fato de Frei Caneca e Bento Gonçalves terem liderado movimentos separatistas no Nordeste e no Sul do país.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

O Contexto da Proclamação da República

A questão aborda o processo de construção simbólica e ideológica da Primeira República no Brasil. Para entender o motivo pelo qual Tiradentes foi alçado à condição de herói nacional, precisamos analisar o contexto histórico da Proclamação da República, ocorrida em 18891889.

A transição do Império para a República não foi um movimento popular. Tratou-se, na verdade, de um golpe militar liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, com apoio de elites agrárias (especialmente os cafeicultores paulistas). A população em geral não participou do processo; como descreveu o jornalista Aristides Lobo na época, o povo assistiu à proclamação "bestializado", sem compreender o que estava acontecendo.

A Necessidade de Legitimação

Diante dessa falta de participação e identificação popular, o novo governo republicano enfrentava um grave problema de legitimação. Era necessário criar uma identidade nacional que conectasse o povo ao novo regime. Para isso, a República precisava de símbolos: uma nova bandeira, um novo hino e, fundamentalmente, novos heróis.

A escolha de Tiradentes não foi acidental. Ele havia participado da Inconfidência Mineira (17891789), um movimento que, embora regional e elitista, tinha ideais republicanos. Mais importante ainda, Tiradentes foi o único inconfidente executado, tornando-se um mártir. Os ideólogos da República, então, ressignificaram sua imagem. Como o texto de apoio de José Murilo de Carvalho aponta, Tiradentes foi moldado como um herói "cívico-religioso". Sua imagem física foi intencionalmente pintada com cabelos longos e barba, assemelhando-se a Jesus Cristo, para gerar uma forte identificação emocional e religiosa com a população brasileira, majoritariamente católica.

Análise das Alternativas

  • A) Incorreta. A Inconfidência Mineira não tinha um caráter nacionalista; era um movimento regional focado na capitania de Minas Gerais.
  • B) Incorreta. O positivismo é uma corrente filosófica do século XIX que influenciou os militares republicanos, mas não tem relação direta com a Conjuração Mineira do século XVIII.
  • C) Correta. A Proclamação da República carecia de raízes populares, e a construção do mito de Tiradentes foi uma estratégia política e ideológica para legitimar o novo regime perante o povo.
  • D) Incorreta. A semelhança física com Jesus Cristo não era um fato histórico prévio que motivou a escolha, mas sim uma construção (uma invenção) dos artistas republicanos do final do século XIX para facilitar a aceitação popular.
  • E) Incorreta. A Inconfidência Mineira também foi um movimento de caráter separatista, assim como os liderados por Frei Caneca (Confederação do Equador) e Bento Gonçalves (Revolução Farroupilha). Logo, esse não foi o critério de exclusão.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2010 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.