Questão 10 do ENEM 2015Ciências Humanas

ENEM 2015Ciências Humanas1ª aplicação

Iniciou-se em 1903 a introdução de obras de arte com representações de bandeirantes no acervo do Museu Paulista, mediante a aquisição de uma tela que homenageava o sertanista que comandara a destruição do Quilombo de Palmares. Essa aquisição, viabilizada por verba estadual, foi simultânea à emergência de uma interpretação histórica que apontava o fenômeno do sertanismo paulista como o elo decisivo entre a trajetória territorial do Brasil e de São Paulo, concepção essa que se consolidaria entre os historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ao longo das três primeiras décadas do século XX.

MARINS, P. c. G. Nas matas com pose de reis: a representação de bandeirantes e a tradição da retratística monárquica européia. Revista do LEB, n. 44, tev. 2007.

A prática governamental descrita no texto, com a escolha dos temas das obras, tinha como propósito a construção de uma memória que
afirmava a centralidade de um estado na política do país.
Resposta correta
B
resgatava a importância da resistência escrava na história brasileira.
C
evidenciava a importância da produção artística no contexto regional.
D
valorizava a saga histórica do povo na afirmação de uma memória social.
E
destacava a presença do indígena no desbravamento do território colonial.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o texto de apoio e conectá-lo ao contexto histórico do Brasil no início do século XX, período conhecido como Primeira República (ou República Velha).

O texto relata que, a partir de 19031903, o Museu Paulista começou a adquirir obras de arte que representavam os bandeirantes, financiadas com verba do estado de São Paulo. Essa ação não foi um mero incentivo às artes, mas sim um projeto político e ideológico. Naquela época, historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo começaram a promover a ideia de que o "sertanismo paulista" (as expedições dos bandeirantes) foi o grande responsável pela formação do território brasileiro.

Mas por que fazer isso naquele momento específico? Durante a Primeira República, São Paulo havia se tornado a maior potência econômica do país graças à economia cafeeira e exercia enorme influência no governo federal (lembre-se da famosa "política do café com leite"). Para legitimar essa hegemonia econômica e política, a elite paulista precisava de uma narrativa histórica que colocasse o estado como o grande "motor" e líder natural do Brasil desde os tempos coloniais.

Assim, a figura do bandeirante — que historicamente foi responsável pela escravização de indígenas e destruição de quilombos — foi "limpa" e transformada em um mito heroico: o desbravador corajoso que expandiu as fronteiras da nação. A arte e os museus foram ferramentas fundamentais para construir e fixar essa memória na mente da população.

Agora, vamos analisar as alternativas:

A) afirmava a centralidade de um estado na política do país. Correta. A exaltação dos bandeirantes servia exatamente para justificar o protagonismo e a liderança do estado de São Paulo no cenário político e econômico nacional da época.

B) resgatava a importância da resistência escrava na história brasileira. Incorreta. O texto menciona explicitamente que a tela homenageava o sertanista que comandou a destruição do Quilombo de Palmares (Domingos Jorge Velho). Ou seja, a obra exaltava o repressor, e não a resistência escrava.

C) evidenciava a importância da produção artística no contexto regional. Incorreta. A arte foi usada apenas como um meio (uma ferramenta) para um fim político maior. O objetivo principal não era valorizar a arte pela arte, mas sim a mensagem histórica que ela transmitia.

D) valorizava a saga histórica do povo na afirmação de uma memória social. Incorreta. A memória construída não era do "povo" de forma ampla e democrática, mas sim de uma figura específica (o bandeirante) que representava os interesses da elite paulista.

E) destacava a presença do indígena no desbravamento do território colonial. Incorreta. Na narrativa heroica dos bandeirantes, o indígena era frequentemente retratado como um obstáculo a ser vencido ou um ser inferior a ser dominado, e não como protagonista do desbravamento.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.