Questão 113 do ENEM 2011Linguagens

ENEM 2011Linguagens2ª aplicação

Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo, que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula. Em compensação, num racha de menino, ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, para de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.

NOGUEIRA, A. Peladas. Os melhores da crônica brasileira.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1977 (fragmento).

O texto expressa a visão do cronista sobre a bola de futebol. Entre as estratégias escolhidas para dar colorido a sua expressão, identifica-se, predominantemente, uma função da linguagem caracterizada pela intenção do autor em
manifestar o seu sentimento em relação ao objeto bola.
Resposta correta
B
buscar influenciar o comportamento dos adeptos do futebol.
C
descrever objetivamente uma determinada realidade.
D
explicar o significado da bola e as regras para seu uso.
E
ativar e manter o contato dialógico com o leitor.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o texto de Armando Nogueira e identificar qual é a intenção principal do autor ao escrevê-lo, relacionando isso com as funções da linguagem.

O texto começa com a frase "Já reparei uma coisa...", o que imediatamente coloca o foco no próprio emissor da mensagem (o autor) e em sua visão particular do mundo. Ao longo do fragmento, o cronista descreve a bola de futebol não como um simples objeto inanimado, mas atribuindo a ela características humanas e animais, um recurso estilístico conhecido como personificação ou prosopopeia: "é um ser muito compreensivo", "mantendo sempre a mesma pose adulta", "ninguém é mais sapeca", "Parece um bichinho".

Essa forma de descrever a bola revela uma visão altamente subjetiva, afetiva e pessoal do autor sobre o esporte e seus elementos. Quando o foco da comunicação está centrado no emissor, em suas emoções, opiniões e sentimentos, dizemos que predomina a função emotiva (ou expressiva) da linguagem.

Vamos analisar as alternativas para confirmar nosso raciocínio:

  • A) manifestar o seu sentimento em relação ao objeto bola. Correta. O autor usa a primeira pessoa e a personificação para expressar sua visão carinhosa e imaginativa sobre a bola, o que é a essência da função emotiva.
  • B) buscar influenciar o comportamento dos adeptos do futebol. Incorreta. Isso caracterizaria a função conativa (ou apelativa), comum em propagandas e discursos persuasivos, o que não ocorre no texto.
  • C) descrever objetivamente uma determinada realidade. Incorreta. O texto é puramente subjetivo e literário, afastando-se da objetividade típica da função referencial (como em notícias de jornal ou textos científicos).
  • D) explicar o significado da bola e as regras para seu uso. Incorreta. O texto não tem caráter didático, referencial ou metalinguístico.
  • E) ativar e manter o contato dialógico com o leitor. Incorreta. Essa seria a função fática (como em expressões do tipo "Alô?", "Entende?"), que serve para testar o canal de comunicação, o que não é o foco principal da crônica.

Portanto, a estratégia do autor visa expressar sua própria subjetividade e afetividade em relação à bola de futebol.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.