Questão 116 do ENEM 2011Linguagens

ENEM 2011Linguagens1ª aplicação

Lépida e leve

Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha…
[…]
Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à ideia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!…

MACHADO, G. In: MORICONI, I. (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (fragmento).

A poesia de Gilka Machado identifica-se com as concepções artísticas simbolistas. Entretanto, o texto selecionado incorpora referências temáticas e formais modernistas, já que, nele, a poeta
A
procura desconstruir a visão metafórica do amor e abandona o cuidado formal.
B
concebe a mulher como um ser sem linguagem e questiona o poder da palavra.
C
questiona o trabalho intelectual da mulher e antecipa a construção do verso livre.
D
propõe um modelo novo de erotização na lírica amorosa e propõe a simplificação verbal.
explora a construção da essência feminina, a partir da polissemia de “língua”, e inova o léxico.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver esta questão, precisamos analisar o poema de Gilka Machado, prestando atenção especial ao vocabulário escolhido e à temática abordada, relacionando-os com as características dos movimentos literários citados no enunciado (Simbolismo e Modernismo).

O poema tem como eixo central a palavra "língua". Ao lermos os versos, percebemos que a autora brinca com os múltiplos significados dessa palavra, um recurso estilístico conhecido como polissemia. Por um lado, "língua" refere-se ao idioma, à palavra, à capacidade de expressão poética ("que me convences de que sou frase", "pelas frases mudas que proferes"). Por outro lado, "língua" ganha um sentido físico, carnal e erótico, referindo-se ao órgão muscular e ao beijo ("que me contornas, que me vestes quase", "pela carne de som").

Essa exploração do erotismo feminino de forma tão aberta e profunda era algo bastante inovador e ousado para a época, rompendo com a passividade frequentemente associada à mulher na poesia tradicional. A autora constrói a essência feminina através dessa dualidade entre o corpo (desejo) e a palavra (expressão).

Além disso, no aspecto formal, embora o poema mantenha características simbolistas (como a musicalidade, as rimas e o uso de metáforas), ele inova no léxico ao criar palavras compostas inusitadas, como "língua-lama" e "língua-resplendor", o que demonstra uma liberdade criativa que dialoga com o Modernismo.

Vamos analisar por que as outras alternativas estão incorretas:

  • A alternativa A está incorreta porque o poema não abandona o cuidado formal; ele apresenta rimas (doce/fosse, enleias/teias) e métrica bem trabalhadas.
  • A alternativa B está incorreta, pois a mulher não é concebida como um ser sem linguagem; pelo contrário, ela se funde com a linguagem poética ("sou frase").
  • A alternativa C está incorreta porque o poema não utiliza versos livres (versos sem métrica ou rima regular), que seriam a marca formal mais radical da primeira fase do Modernismo.
  • A alternativa D está incorreta porque não há simplificação verbal. O vocabulário utilizado é sofisticado e erudito (ex: "lépida", "enleias", "funestas").

Portanto, a alternativa E é a única que descreve corretamente o movimento do poema: a poeta explora a construção da essência e do desejo feminino valendo-se da polissemia da palavra "língua" e inova o vocabulário com suas construções neológicas.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.