Questão 32 do ENEM 2024Linguagens

ENEM 2024Linguagens1ª aplicação

Marília acorda

Tomo café em golinhos para não queimar meus lábios ressequidos. Como pão em pedacinhos para não engasgar com um farelo mais duro. Marília come também, mas olha o tempo todo para baixo. Parece que tem um acanhamento novo entre a gente. Termino. Olho mais uma vez pela janela. O dia está bom. Quero caminhar pelo pátio. Marília levanta, pega o andador e põe ao lado da cama. Ela sabe que eu quero levantar sozinha, e levanto. O lance de escadas, apesar de pequeno, ainda me causa problemas, mas não quero um elevador na casa e não vou tolerar descer uma rampa de cadeira de rodas. Marília abre a porta e saímos para a manhã. O dia está mais fresco do que eu imaginava. Ela pega uma manta de tricô que temos desde não sei quando e põe sobre as minhas costas. Ela aperta meus ombros com muita força, porque mesmo depois de todos esses anos, não descobriu a medida certa do carinho. Eu gosto. Porque entendo que naquele ato, naquela força está o nosso carinho.

POLESSO, N. B. Amora. Porto Alegre: Não Editora, 2015.

Nesse trecho, o drama do declínio físico da narradora transmite uma sensibilidade lírica centrada na
A
necessidade de fazer adaptações na casa.
atmosfera de afeto fortalecido pelo convívio.
Resposta correta
C
condição de dependência de outras pessoas.
D
determinação de manter a regularidade da rotina.
E
aceitação das restrições de mobilidade da personagem.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos entender o foco do enunciado: ele reconhece que o texto aborda um tema difícil — o declínio físico da narradora —, mas pergunta onde, no meio desse drama, encontramos a "sensibilidade lírica". Na literatura, o lirismo está intimamente ligado à expressão de emoções, à subjetividade e à beleza dos sentimentos humanos.

Vamos analisar a construção da narrativa. Inicialmente, a narradora descreve suas limitações físicas de forma bastante crua: precisa tomar café em "golinhos" e comer pão em "pedacinhos" para não se machucar ou engasgar. Ela também relata a dificuldade com as escadas e a presença de um andador. Esse é o cenário de dor e fragilidade.

No entanto, a narradora demonstra uma forte resistência a essa condição. Ela faz questão de levantar sozinha e afirma categoricamente que não quer um elevador e não vai tolerar uma rampa de cadeira de rodas. Isso nos mostra que ela não aceita passivamente suas restrições, o que já nos ajuda a descartar interpretações baseadas na resignação.

A virada lírica do texto acontece na interação com Marília. O foco passa das limitações do corpo para o cuidado e a conexão entre as duas personagens. Marília coloca sobre a narradora uma manta de tricô antiga, evidenciando uma longa história compartilhada ("que temos desde não sei quando"). Em seguida, o clímax emocional ocorre quando Marília aperta os ombros da narradora com muita força. O texto diz que, "mesmo depois de todos esses anos, não descobriu a medida certa do carinho". Em vez de ver isso como um gesto bruto, a narradora enxerga a poesia e o amor nessa atitude: "Eu gosto. Porque entendo que naquele ato, naquela força está o nosso carinho".

Agora, vamos avaliar as alternativas com base nessa análise:

  • A) necessidade de fazer adaptações na casa. Incorreta. A narradora rejeita explicitamente as adaptações, como o elevador e a rampa. Além disso, reformas arquitetônicas dizem respeito à praticidade, não à "sensibilidade lírica".
  • B) atmosfera de afeto fortalecido pelo convívio. Correta. O lirismo do texto reside justamente na relação profunda entre as personagens. O afeto é demonstrado nos pequenos cuidados diários e na compreensão mútua de gestos imperfeitos, construídos ao longo de anos de convivência ("depois de todos esses anos").
  • C) condição de dependência de outras pessoas. Incorreta. Embora a dependência exista, a narradora luta contra ela ("quero levantar sozinha"). O texto não exalta a dependência em si, mas sim o amor que sustenta a narradora apesar das dificuldades.
  • D) determinação de manter a regularidade da rotina. Incorreta. A rotina é apenas o pano de fundo da narrativa. A emoção e a poesia não vêm da repetição mecânica dos dias, mas sim da forma como o afeto se manifesta dentro dessa rotina.
  • E) aceitação das restrições de mobilidade da personagem. Incorreta. Como vimos, a narradora é teimosa e desafiadora. Ela afirma que "não vai tolerar" certas adaptações, mostrando que não há uma aceitação pacífica de suas restrições.

Portanto, a beleza e a emoção do texto transcendem a descrição patológica do envelhecimento, focando na intimidade e no amor consolidados pelo convívio.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2024 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.