Questão 24 do ENEM 2015Ciências Humanas

ENEM 2015Ciências Humanas2ª aplicação

Mediante o Código de Posturas de 1932, o poder público enumera e prevê, para os habitantes de Fortaleza, uma série de proibições condicionadas pela hora: após as 22 horas era vetada a emissão de sons em volume acentuado. O uso de buzinas, sirenes, vitrolas, motores ou qualquer objeto que produzisse barulho seria punido com multa. No início dos anos 1940 o último bonde partia da Praça do Ferreira às 23 horas.

SILVA FILHO, A. L. M. Fortaleza: imagens da cidade. Fortaleza: Museu do Ceará; Secult, 2001 (adaptado).

Como Fortaleza, muitas capitais brasileiras experimentaram, na primeira metade do século XX, um novo tipo de vida urbana, marcado por condutas que evidenciam uma
A
experiência temporal regida pelo tempo orgânico e pessoal.
B
experiência que flexibilizava a obediência ao tempo do relógio.
C
relação de códigos que estimulavam o trânsito de pessoas na cidade.
normatização do tempo com vistas à disciplina dos corpos na cidade.
Resposta correta
E
cultura urbana capaz de conviver com diferentes experiências temporais.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

O texto-base apresenta um cenário da cidade de Fortaleza nas décadas de 19301930 e 19401940, onde o poder público, por meio do Código de Posturas, estabelece regras rígidas de convivência baseadas no horário. A proibição de barulhos após as 22 h22\text{ h} e a partida do último bonde às 23 h23\text{ h} demonstram uma intervenção direta do Estado na rotina dos cidadãos.

Esse fenômeno não foi exclusivo de Fortaleza, mas uma característica comum a várias capitais brasileiras durante a primeira metade do século XX\text{XX}. Nesse período, o Brasil passava por um processo de modernização e crescimento urbano. Para organizar essa nova vida nas cidades, inspirada nos moldes europeus e na lógica capitalista, tornou-se necessário controlar o ritmo de vida da população.

A transição para a modernidade urbana exigiu a substituição do "tempo orgânico" (baseado nos ciclos da natureza, comum no meio rural) pelo "tempo do relógio". O estabelecimento de horários para o silêncio e para o encerramento do transporte público tinha um objetivo claro: garantir o descanso noturno para que a população estivesse produtiva e disposta para o trabalho na manhã seguinte.

Essa imposição de regras e horários pelo poder público é o que chamamos de normatização do tempo. Ao ditar a hora de fazer silêncio e de se recolher, o Estado exerce uma disciplina dos corpos, controlando o comportamento e a circulação das pessoas no espaço urbano para manter a ordem social e a produtividade.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A está incorreta porque o tempo orgânico é justamente o que está sendo superado pela imposição do relógio.
  • A alternativa B é falsa, pois não há flexibilização, mas sim uma imposição rigorosa do tempo do relógio, sob pena de multa.
  • A alternativa C não se sustenta, já que as medidas citadas (como o fim da circulação dos bondes às 23 h23\text{ h}) limitavam, e não estimulavam, o trânsito de pessoas à noite.
  • A alternativa D está correta, pois descreve perfeitamente o uso de leis (normatização) para controlar os horários e o comportamento (disciplina dos corpos) da população urbana.
  • A alternativa E é incorreta porque o Código de Posturas impõe uma experiência temporal única e hegemônica, não abrindo espaço para a convivência com outras formas de vivenciar o tempo.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.