Questão 105 do ENEM 2011Linguagens

ENEM 2011Linguagens2ª aplicação

Morte e vida Severina

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia.

MELO NETO, J. C. Obra completa. Rio Janeiro: Nova Aguilar, 1994 (fragmento).

Nesse fragmento, parte de um auto de Natal, o poeta retrata uma situação marcada pela
A
presença da morte, que universaliza os sofrimentos dos nordestinos.
B
figura do homem agreste, que encara ternamente sua condição de pobreza.
C
descrição sentimentalista de Severino, que divaga sobre questões existenciais.
miséria, à qual muitos nordestinos estão expostos, simbolizada na figura de Severino.
Resposta correta
E
opressão socioeconômica a que todo ser humano se encontra submetido.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o fragmento do poema Morte e Vida Severina, uma das obras mais famosas de João Cabral de Melo Neto, autor da Terceira Geração do Modernismo brasileiro.

O poema narra a trajetória de um retirante nordestino. Logo no início do trecho, o eu lírico afirma: "Somos muitos Severinos / iguais em tudo na vida". Aqui, percebemos que "Severino" deixa de ser apenas um nome próprio e passa a ser um substantivo coletivo, um símbolo que representa uma grande parcela da população nordestina que compartilha da mesma condição de vida severa.

Ao descrever as características físicas desses "Severinos", o poeta destaca a "cabeça grande", o "ventre crescido", as "pernas finas" e o "sangue que usamos tem pouca tinta". Essas imagens são descrições diretas e cruas dos efeitos da desnutrição, da verminose e da anemia, evidenciando a situação de extrema miséria e abandono social.

Além da vida de privações, o destino final também é compartilhado: a "morte Severina". Essa morte não é natural ou tranquila; é uma morte precoce, causada pelo envelhecimento prematuro ("velhice antes dos trinta"), pela violência ("emboscada antes dos vinte") ou pela inanição ("fome um pouco por dia").

Analisando as alternativas com base nessa interpretação:

  • A alternativa A está incorreta porque a morte não universaliza o sofrimento de todos os nordestinos, mas sim de uma classe específica e marginalizada (os "Severinos").
  • A alternativa B erra ao dizer que o homem encara sua condição "ternamente". A poesia de João Cabral é marcada pela objetividade e pela denúncia social crua, sem espaço para romantização ou ternura diante da miséria.
  • A alternativa C é incorreta porque não há sentimentalismo. A linguagem é seca, direta e objetiva, característica marcante do autor.
  • A alternativa E generaliza demais ao afirmar que "todo ser humano" está submetido a essa opressão. O poema foca em uma realidade regional e social muito específica do Nordeste brasileiro.

Portanto, a alternativa D é a correta. O fragmento retrata a miséria à qual muitos nordestinos estão expostos, utilizando a figura de Severino como um símbolo dessa dura realidade coletiva.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.