Questão 128 do ENEM 2011Linguagens

ENEM 2011Linguagens1ª aplicação

Motivadas ou não historicamente, normas prestigiadas ou estigmatizadas pela comunidade sobrepõem-se ao longo do território, seja numa relação de oposição, seja de complementaridade, sem, contudo, anular a interseção de usos que configuram uma norma nacional distinta da do português europeu. Ao focalizar essa questão, que opõe não só as normas do português de Portugal às normas do português brasileiro, mas também as chamadas normas cultas locais às populares ou vernáculas, deve-se insistir na ideia de que essas normas se consolidaram em diferentes momentos da nossa história e que só a partir do século XVIII se pode começar a pensar na bifurcação das variantes continentais, ora em consequência de mudanças ocorridas no Brasil, ora em Portugal, ora, ainda, em ambos os territórios.

CALLOU, D. Gramática, variação e normas. In: VIEIRA, S. R.; BRANDÃO, S. (orgs). Ensino de gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007 (adaptado).

O português do Brasil não é uma língua uniforme. A variação linguística é um fenômeno natural, ao qual todas as línguas estão sujeitas. Ao considerar as variedades linguísticas, o texto mostra que as normas podem ser aprovadas ou condenadas socialmente, chamando a atenção do leitor para a
A
desconsideração da existência das normas populares pelos falantes da norma culta.
B
difusão do português de Portugal em todas as regiões do Brasil só a partir do século XVIII.
existência de usos da língua que caracterizam uma norma nacional do Brasil, distinta da de Portugal.
Resposta correta
D
inexistência de normas cultas locais e populares ou vernáculas em um determinado país.
E
necessidade de se rejeitar a ideia de que os usos frequentes de uma língua devem ser aceitos.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar com cuidado o texto de Dinah Callou e identificar qual é a sua tese central sobre a língua portuguesa falada no Brasil.

O texto aborda a complexidade da nossa língua, reconhecendo que existem diversas normas convivendo no mesmo território. Algumas dessas normas são prestigiadas (a norma culta, ensinada nas escolas e usada em contextos formais), enquanto outras são estigmatizadas (as normas populares ou vernáculas, usadas no dia a dia e muitas vezes alvo de preconceito linguístico).

No entanto, o ponto crucial do argumento da autora está na seguinte passagem: essas diferentes normas se sobrepõem "sem, contudo, anular a interseção de usos que configuram uma norma nacional distinta da do português europeu".

O que isso significa na prática? Significa que, apesar de todas as variações regionais e sociais dentro do Brasil, existe um conjunto de características linguísticas (uma "interseção de usos") que é comum aos brasileiros e que nos diferencia da forma como a língua é falada em Portugal. A autora reforça essa ideia ao mencionar que, a partir do século XVIII, ocorreu uma "bifurcação das variantes continentais", ou seja, o português do Brasil e o português de Portugal começaram a seguir caminhos diferentes, desenvolvendo identidades próprias.

Com base nessa interpretação, vamos analisar as alternativas:

  • Alternativa A: Incorreta. Embora o texto mencione que algumas normas são "estigmatizadas" (o que implica preconceito), o foco principal da autora não é denunciar a desconsideração das normas populares, mas sim afirmar a existência de uma norma nacional brasileira.
  • Alternativa B: Incorreta. O português de Portugal chegou ao Brasil no início da colonização (século XVI). O século XVIII, segundo o texto, marca o momento em que as duas variantes (brasileira e europeia) começaram a se separar ("bifurcação"), e não o momento de difusão.
  • Alternativa C: Correta. Esta alternativa é uma paráfrase perfeita da tese central do texto. A autora chama a atenção exatamente para a existência de usos consolidados que formam uma norma nacional própria do Brasil, diferente da norma de Portugal.
  • Alternativa D: Incorreta. O texto afirma exatamente o oposto, mencionando explicitamente a existência das "chamadas normas cultas locais às populares ou vernáculas".
  • Alternativa E: Incorreta. A linguística moderna, área de estudo da autora, não rejeita os usos frequentes; pelo contrário, entende que são os usos reais e consolidados pelos falantes que acabam configurando as normas de uma língua ao longo do tempo.

Portanto, a mensagem principal do texto é a afirmação da autonomia e da identidade própria do português brasileiro.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.