Questão 50 do ENEM 2022Ciências Humanas

ENEM 2022Ciências Humanas1ª aplicação

Na construção da ferrovia Madeira-Marmoré, o que dizer dos doentes, eternos moribundos a vagar entre delírios fabris, doses de quinino e corredores da morte? O Hospital da Candelária era santuário e túmulo, monumento ao progresso científico e preâmbulo da escuridão. Foi ali, com suas instalações moderníssimas, que médicos e sanitaristas dirigiram seu combate aos males tropicais. As maiores vitimas, contudo, permaneceriam na sombra a margem do palco, cobaias sem consolo, credores sem nome de uma sociedade que  não lhes concedera tempo algum para ser decifrada.

FOOT HARDWAN, F. Trem fantasma: modernidade na selva

São Paulo: Cia das letras,1968 adaptado

No texto, há uma crítica ao modo de ocupação do espaço amazônico pautada na
A
discrepância entre engenharia ambiental e equilíbrio da fauna
B
incoerência entre maquinaria estrangeira e controle da floresta
C
incompatibilidade entre investimento estatal e proteção aos nativos
D
competição entre farmacologia internacional e produtos de fitoterapia
contradição entre desenvolvimento nacional e respeito aos trabalhadores
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o texto de apoio e identificar qual é a crítica central que o autor faz à construção da Ferrovia Madeira-Mamoré.

O texto constrói um forte contraste entre dois elementos. De um lado, temos o "progresso científico" e as "instalações moderníssimas" do Hospital da Candelária, que representam o esforço de modernização e desenvolvimento tecnológico na região amazônica. Do outro lado, temos a dura realidade humana: os trabalhadores são descritos como "eternos moribundos", "vítimas" e "cobaias sem consolo" que vagam pelos "corredores da morte".

Historicamente, a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré, no início do século XX, ficou conhecida como a "Ferrovia do Diabo" devido à altíssima taxa de mortalidade dos trabalhadores, vitimados principalmente por doenças tropicais como a malária e a febre amarela. O projeto visava escoar a produção de borracha, inserindo-se em um plano de desenvolvimento econômico nacional e internacional, mas o custo humano foi devastador.

Vamos analisar as alternativas com base nessa interpretação:

  • Alternativa A: Incorreta. O texto não aborda questões ecológicas, como o equilíbrio da fauna ou a engenharia ambiental, mas sim o sofrimento humano.
  • Alternativa B: Incorreta. Embora a obra utilizasse tecnologia estrangeira, a crítica do autor não se volta para a relação entre as máquinas e o controle da floresta, e sim para o tratamento dado às pessoas.
  • Alternativa C: Incorreta. É uma armadilha comum. Obras na Amazônia frequentemente afetam populações indígenas ("nativos"), mas o texto foca especificamente nos trabalhadores da ferrovia (muitos deles migrantes nordestinos e estrangeiros), que adoeciam nos canteiros de obras e eram tratados nos hospitais.
  • Alternativa D: Incorreta. O texto menciona o uso de "quinino" (medicamento para malária), mas não sugere nenhuma competição comercial com produtos de fitoterapia local.
  • Alternativa E: Correta. A crítica central reside exatamente na contradição entre o projeto de desenvolvimento nacional (a ferrovia, o progresso científico, a modernidade) e a total falta de respeito aos trabalhadores, que foram tratados como peças descartáveis ("cobaias sem consolo") em nome desse progresso.

Portanto, a alternativa correta é a que aponta o choque entre o avanço técnico e a degradação humana.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2022 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.