Questão 57 do ENEM 2020Ciências Humanas

ENEM 2020Ciências HumanasPPL

Na primeira meditação, eu exponho as razões pelas quais nós podemos duvidar de todas as coisas e, particularmente das coisas materiais, pelo menos enquanto não tivermos outros fundamentos nas ciências além dos que tivemos até o presente. Na segunda meditação, o espírito reconhece entretanto que é absolutamente impossível que ele mesmo, o espírito, não exista. <\/p><\/div>

DESCARTES, R. Meditações metafísicas<\/strong>. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (adaptado).<\/p><\/div><\/div><\/section>

O instrumento intelectual empregado por Descartes para analisar os seus próprios pensamentos tem como objetivo
identificar um ponto de partida para a consolidação de um conhecimento seguro.
Resposta correta
B
observar os eventos particulares para a formação de um entendimento universal.
C
analisar as necessidades humanas para a construção de um saber empírico.
D
estabelecer uma base cognitiva para assegurar a valorização da memória.
E
investigar totalidades estruturadas para dotá-las de significação.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

A questão aborda um dos momentos mais fundamentais da história da Filosofia: o pensamento de René Descartes e o seu famoso método da dúvida, apresentado na obra Meditações Metafísicas.

Para entender o que a questão pede, precisamos lembrar do contexto em que Descartes escreve. Ele percebeu que muitas das coisas que havia aprendido ao longo da vida eram incertas ou baseadas em opiniões duvidosas. Como um bom matemático e filósofo racionalista, ele desejava reconstruir o edifício do conhecimento sobre bases sólidas e inabaláveis.

Para isso, Descartes cria um "instrumento intelectual" conhecido como dúvida metódica (ou dúvida hiperbólica). Na Primeira Meditação, ele decide duvidar de absolutamente tudo: dos sentidos (pois eles nos enganam), da realidade (pois podemos estar sonhando) e até mesmo das verdades matemáticas (imaginando a existência de um "gênio maligno" que o enganaria o tempo todo).

No entanto, o objetivo de Descartes não era se tornar um cético e afirmar que o conhecimento é impossível. Pelo contrário, a dúvida era apenas um método, um caminho para encontrar uma verdade que fosse tão clara e distinta que resistisse a qualquer questionamento.

É na Segunda Meditação que ele encontra essa verdade: ao duvidar de tudo, ele percebe que há uma coisa da qual não pode duvidar — o fato de que ele está duvidando. Se ele duvida, ele pensa; e se ele pensa, ele necessariamente existe enquanto ser pensante. Daí surge a famosa máxima Cogito, ergo sum ("Penso, logo existo"). Essa descoberta torna-se o ponto de partida inabalável a partir do qual Descartes vai reconstruir e consolidar todo o conhecimento seguro (a ciência).

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A descreve perfeitamente esse processo: a dúvida metódica serve para encontrar uma primeira verdade indubitável (o ponto de partida) para, a partir dela, consolidar um conhecimento seguro.
  • A alternativa B descreve o método indutivo, característico de filósofos empiristas como Francis Bacon, e não do racionalismo cartesiano.
  • A alternativa C fala em "saber empírico", o que vai na contramão de Descartes, que desconfiava profundamente dos sentidos (empiria).
  • A alternativa D fala em valorização da memória, mas Descartes considerava que a memória também poderia nos enganar.
  • A alternativa E traz conceitos que remetem a correntes filosóficas muito posteriores, como o estruturalismo ou a fenomenologia.

Portanto, a alternativa correta é a A.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.