Questão 53 do ENEM 2025Ciências Humanas

ENEM 2025Ciências HumanasBelém

Não ignoro que muitos foram e são de opinião de que as coisas do mundo são governadas de tal modo pela fortuna e por Deus e que os homens não podem corrigi-las com a prudência, e até não têm remédio algum contra eles. Por isso, poder-se-ia julgar que não devemos incomodar-nos demais com as coisas, mas deixar-nos governar à sorte.

MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

Diante dessas reflexões de Maquiavel, qual é a função do livre-arbítrio nos domínios da política?
A
Aplacar a aspiração de poder dos súditos.
Orientar o soberano no campo das incertezas.
Resposta correta
C
Estabilizar a administração por meio do diálogo.
D
Relativizar os valores morais no escopo das tradições.
E
Aprimorar o espírito bélico para a conquista de territórios.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos compreender dois conceitos centrais na filosofia política de Nicolau Maquiavel, apresentados em sua obra O Príncipe: a fortuna e a virtù.

No trecho fornecido, Maquiavel expõe uma visão comum de sua época: a ideia de que o mundo é governado pelo destino (fortuna) ou por Deus, e que os seres humanos não têm o poder de alterar o curso das coisas com sua prudência (livre-arbítrio). No entanto, ele introduz esse pensamento justamente para discordar dele em parte.

Para Maquiavel, a fortuna representa o acaso, a sorte, as circunstâncias imprevisíveis e as incertezas que fogem ao controle humano. Se os homens se deixassem governar apenas pela sorte, estariam fadados à ruína quando as circunstâncias mudassem. É aqui que entra a virtù, que não deve ser confundida com a virtude moral cristã, mas sim entendida como a capacidade de ação, a astúcia, a prudência e o livre-arbítrio do governante.

Maquiavel defende que a fortuna controla apenas metade de nossas ações, deixando a outra metade para o nosso livre-arbítrio. Ele usa a metáfora de um rio violento (a fortuna) que, quando transborda, destrói tudo. Porém, nos tempos de calmaria, os homens podem usar seu livre-arbítrio (a virtù) para construir diques e barragens, preparando-se para quando a enchente vier.

Portanto, nos domínios da política, a função do livre-arbítrio é justamente orientar o soberano no campo das incertezas. Ele permite que o governante aja de forma calculada e prudente para domar, na medida do possível, as imprevisibilidades da fortuna, garantindo a manutenção do seu poder e a estabilidade do Estado.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta, pois o foco do texto não é a aspiração de poder dos súditos, mas a ação do governante diante do acaso.
  • B está correta, pois o livre-arbítrio (virtù) é a ferramenta do soberano para lidar com a sorte (incertezas).
  • C está incorreta, pois Maquiavel não foca no diálogo como meio de estabilização diante da fortuna.
  • D está incorreta, pois, embora Maquiavel separe a política da moral tradicional, o texto trata da relação entre ação humana e destino.
  • E está incorreta, pois o livre-arbítrio tem uma função muito mais ampla do que apenas o aprimoramento bélico; trata-se da capacidade geral de adaptação e previsão do governante.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.