Questão 44 do ENEM 2021Linguagens

ENEM 2021Linguagens1ª aplicação

Naquele tempo, Itaguaí, que, como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia; ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um home, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regímen mereciam o desprezo do nosso século.

ASSIS, M. O alienista. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.
Acesso em 2 jun. 2019 (adaptado).

O fragmento faz uma referência irônica a formas de divulgação e circulação de informações em uma localidade sem imprensa. Ao destacar a confiança da população no sistema da matraca, o narrador associa esse recurso à disseminação de
A
campanhas políticas.
B
anúncios publicitários.
C
notícias de apelo popular.
informações não fidedignas.
Resposta correta
E
serviços de utilidade pública.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar com atenção o fragmento do conto O alienista, de Machado de Assis, e identificar a ironia presente na narrativa.

O texto descreve como as notícias eram divulgadas na vila de Itaguaí antes da existência da imprensa: por meio de cartazes ou do uso da matraca. O narrador explica que um homem era contratado para andar pelas ruas tocando a matraca e anunciando de tudo, desde remédios até discursos.

O ponto central para responder à questão está no exemplo dado pelo narrador para ilustrar a "grande energia de divulgação" desse sistema. Ele conta a história de um vereador que tinha a reputação de ser um "perfeito educador de cobras e macacos", embora nunca tivesse domesticado um só desses bichos. Como ele conseguiu essa fama? Simplesmente pagando para que a matraca anunciasse isso todos os meses.

A ironia atinge seu ápice quando o narrador relata que as pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador, uma afirmação que era "perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema". Ou seja, a população confiava tanto no meio de comunicação (a matraca) que passava a acreditar em mentiras e até a criar falsas memórias para confirmar o que era anunciado.

Dessa forma, ao destacar a confiança cega da população no sistema da matraca, o narrador associa esse recurso à disseminação de informações não fidedignas (falsas), fazendo um paralelo muito atual com o que hoje chamamos de fake news.

Analisando as alternativas:

  • A) campanhas políticas: Embora o personagem citado seja um vereador, o foco da ironia não é a campanha política em si, mas a mentira espalhada.
  • B) anúncios publicitários: A matraca fazia anúncios, mas a ironia destacada no comando da questão recai sobre a crença em inverdades.
  • C) notícias de apelo popular: O texto não foca no apelo popular, mas na falsidade da notícia.
  • D) informações não fidedignas: Correta. O texto mostra claramente como a matraca era usada para espalhar uma mentira que acabou sendo tida como verdade absoluta pela população.
  • E) serviços de utilidade pública: Espalhar que alguém doma cobras sem nunca tê-lo feito não é um serviço de utilidade pública.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.