Questão 88 do ENEM 2020Ciências Humanas

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No aluir das paredes, no ruir das pedras, no esfacelar do barro, havia um longo gemido. Era o gemido soturno e lamentoso do Passado, do Atraso, do Opróbrio. A cidade colonial, imunda, retrógrada, emperrada nas velhas tradições, estava soluçando no soluçar daqueles apodrecidos materiais que desabavam. Mas o hino claro das picaretas abafava esse projeto impotente. Com que alegria cantavam elas — as picaretas regeneradoras! E como as almas dos que ali estavam compreendiam o que elas diziam, no clamor incessante e rítmico, celebrando a vitória da higiene, do bom gosto e da arte.

BILAC, O. Crônica (1904). Apud SEVCENKO, N. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1995.

De acordo com o texto, a “picareta regeneradora” do alvorecer do século XX significava a
A
erradicação dos símbolos monárquicos.
B
restauração das edificações seculares.
C
interrupção da especulação imobiliária.
D
reconstrução das moradias populares.
reestruturação do espaço urbano.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o texto de Olavo Bilac e conectá-lo ao contexto histórico do Brasil no início do século XX.

O texto descreve a destruição de construções antigas ("aluir das paredes", "ruir das pedras") que, segundo o autor, representavam o "Passado, do Atraso, do Opróbrio". A cidade colonial é adjetivada como "imunda, retrógrada, emperrada nas velhas tradições". Em contrapartida, as picaretas que destroem essa cidade velha são chamadas de "regeneradoras", pois celebram a "vitória da higiene, do bom gosto e da arte".

Historicamente, esse relato se refere às grandes reformas urbanas ocorridas na cidade do Rio de Janeiro (então capital federal) durante a gestão do prefeito Pereira Passos, no início do século XX (período conhecido como Reforma Pereira Passos ou "Bota-Abaixo"). O objetivo dessa reforma era modernizar a capital aos moldes de cidades europeias, como Paris, alargando ruas, construindo grandes avenidas (como a Avenida Central) e implementando medidas de saneamento básico. Para isso, cortiços e velhos casarões coloniais do centro da cidade foram demolidos, expulsando a população mais pobre para os morros e subúrbios.

Analisando as alternativas:

A) erradicação dos símbolos monárquicos. Incorreta. Embora a República buscasse se afastar do passado imperial, o foco do texto e das reformas era a modernização, o saneamento e o embelezamento da cidade, e não especificamente a destruição de símbolos da monarquia.

B) restauração das edificações seculares. Incorreta. O texto fala explicitamente em destruição ("ruir", "esfacelar", "desabavam") e não em restauração.

C) interrupção da especulação imobiliária. Incorreta. As reformas urbanas, na verdade, impulsionaram a especulação imobiliária nas áreas centrais recém-valorizadas.

D) reconstrução das moradias populares. Incorreta. As moradias populares (cortiços) foram destruídas pelas picaretas, e seus moradores não receberam novas habitações no centro, sendo forçados a se deslocar para as periferias e morros.

E) reestruturação do espaço urbano. Correta. A "picareta regeneradora" é a metáfora perfeita para a demolição da velha estrutura colonial visando a construção de um novo espaço urbano, planejado, higienizado e moderno, que atendesse aos interesses das elites da Primeira República.

Portanto, a alternativa correta é a E.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.