Questão 63 do ENEM 2009Ciências Humanas

ENEM 2009Ciências Humanas1ª aplicação

No final do século XVI, na Bahia, Guiomar de Oliveira denunciou Antônia Nóbrega à Inquisição. Segundo o depoimento, esta lhe dava “uns pós não sabe de quê, e outros pós de osso de finado, os quais pós ela confessante deu a beber em vinho ao dito seu marido para ser seu amigo e serem bem-casados, e que todas estas coisas fez tendo-lhe dito a dita Antônia e ensinado que eram coisas diabólicas e que os diabos lha ensinaram”.

ARAÚJO, E. O teatro dos vícios. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. Brasília: UnB/José Olympio, 1997.

Do ponto de vista da Inquisição,
A
o problema dos métodos citados no trecho residia na dissimulação, que acabava por enganar o enfeitiçado.
B
o diabo era um concorrente poderoso da autoridade da Igreja e somente a justiça do fogo poderia eliminá-lo.
C
os ingredientes em decomposição das poções mágicas eram condenados porque afetavam a saúde da população.
D
as feiticeiras representavam séria ameaça à sociedade, pois eram perceptíveis suas tendências feministas.
os cristãos deviam preservar a instituição do casamento recorrendo exclusivamente aos ensinamentos da Igreja.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o texto fornecido e compreender o papel histórico da Inquisição (ou Tribunal do Santo Ofício) durante o período colonial brasileiro.

O texto relata uma denúncia feita à Inquisição no final do século XVI, na Bahia. Uma mulher confessa ter usado "pós de osso de finado" e outras substâncias, dadas a ela por outra mulher, para dar ao marido com o objetivo de "serem bem-casados". O próprio relato menciona que essas práticas eram consideradas "coisas diabólicas".

A Inquisição era a instituição da Igreja Católica responsável por investigar e punir crimes contra a fé, como heresias, feitiçarias, bigamia, judaísmo, entre outros. O monopólio da salvação e da moralidade pertencia à Igreja. Portanto, qualquer tentativa de resolver problemas cotidianos — como crises conjugais — por meio de simpatias, feitiços ou magias era duramente reprimida, pois desviava o fiel dos dogmas católicos e recorria a forças consideradas demoníacas.

Analisando as alternativas sob a ótica da Inquisição:

A) Incorreta. O problema central para a Inquisição não era a "dissimulação" ou o engano em si, mas sim o uso de práticas mágicas e heréticas (feitiçaria) que feriam os dogmas da Igreja.

B) Incorreta. A Inquisição não acreditava que a "justiça do fogo" (a fogueira) pudesse eliminar o diabo. A fogueira era uma punição e uma forma de purificação para o herege ou feiticeiro que não se arrependesse, e não uma arma para destruir o demônio em si.

C) Incorreta. A preocupação da Inquisição era estritamente religiosa e moral (a salvação da alma e a manutenção da ortodoxia católica), e não sanitária ou de saúde pública.

D) Incorreta. O conceito de "tendências feministas" é totalmente anacrônico para o século XVI. A Inquisição perseguia mulheres acusadas de feitiçaria por misoginia e por associá-las à fragilidade espiritual e ao pacto demoníaco, não por enxergarem nelas um movimento político feminista.

E) Correta. Para a Igreja Católica e, por extensão, para a Inquisição, o casamento era um sacramento sagrado. Qualquer problema matrimonial deveria ser resolvido por meio da oração, da confissão, da penitência e da orientação dos sacerdotes, ou seja, recorrendo exclusivamente aos ensinamentos e métodos aprovados pela Igreja, e nunca através de feitiçarias ou "coisas diabólicas".

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Fonte: prova oficial do ENEM 2009 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.