Questão 89 do ENEM 2018Ciências Humanas

ENEM 2018Ciências Humanas1ª aplicação

No início da década de 1990, dois biólogos importantes, Redford e Robinson, produziram um modelo largamente aceito de “produção sustentável” que previa quantos indivíduos de cada espécie poderiam ser caçados de forma
sustentável baseado nas suas taxas de reprodução. Os seringueiros do Alto Juruá tinham um modelo diferente: a quem lhes afirmava que estavam caçando acima do sustentável (dentro do modelo), eles diziam que não, que o nível da caça dependia da existência de áreas de refúgio em que ninguém caçava. Ora, esse acabou sendo o modelo batizado de “fonte-ralo” proposto dez anos após o primeiro por Novaro, Bodmer e o próprio Redford e que suplantou o modelo anterior.

CUNHA, M. C. Revista USP, n. 75, set.-nov. 2007.

No contexto da produção científlca, a necessidade de reconstrução desse modelo, conforme exposto no texto, foi determinada pelo confronto com um(a)
A
conclusão operacional obtida por lógica dedutiva.
B
visão de mundo marcada por preconceitos morais.
C
hábito social condicionado pela religiosidade popular.
conhecimento empírico apropriado pelo senso comum.
Resposta correta
E
padrão de preservação construído por experimentação dirigida.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o texto e entender a relação entre o conhecimento científico e o saber tradicional da comunidade local.

O texto nos apresenta duas visões sobre a caça sustentável. De um lado, temos o modelo científico inicial proposto por biólogos na década de 1990, que se baseava estritamente nas taxas de reprodução das espécies. Do outro lado, temos a visão dos seringueiros do Alto Juruá, que afirmavam que a sustentabilidade da caça dependia, na verdade, da existência de áreas de refúgio onde a caça não ocorria.

Com o passar do tempo, os próprios cientistas perceberam que os seringueiros estavam corretos e reformularam seu modelo científico, criando o modelo de "fonte-ralo". O comando da questão nos pergunta o que motivou essa reconstrução do modelo científico.

O saber dos seringueiros não foi construído em laboratórios ou por meio de métodos científicos rigorosos, mas sim através da vivência diária, da observação da natureza e da prática ao longo de gerações. Esse tipo de saber é o que chamamos de conhecimento empírico (baseado na experiência prática). Como esse conhecimento é compartilhado e validado pela própria comunidade no seu dia a dia, ele se consolida como parte do senso comum daquele grupo.

Analisando as alternativas:

  • A) conclusão operacional obtida por lógica dedutiva: Incorreta. Os seringueiros não usaram lógica dedutiva formal (típica da matemática ou filosofia clássica), mas sim a observação prática.
  • B) visão de mundo marcada por preconceitos morais: Incorreta. O texto não aborda questões morais ou preconceitos, mas sim uma divergência sobre a dinâmica ecológica da caça.
  • C) hábito social condicionado pela religiosidade popular: Incorreta. A justificativa dos seringueiros era puramente prática e ecológica (áreas de refúgio), sem qualquer menção a crenças religiosas.
  • D) conhecimento empírico apropriado pelo senso comum: Correta. O modelo científico precisou ser revisto ao entrar em confronto com a experiência prática (empírica) acumulada e compartilhada pela comunidade de seringueiros (senso comum).
  • E) padrão de preservação construído por experimentação dirigida: Incorreta. A "experimentação dirigida" é uma característica do método científico formal, e não da vivência cotidiana dos seringueiros.

Portanto, a ciência, neste caso, evoluiu ao reconhecer a validade do saber popular construído pela experiência.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2018 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.