Questão 53 do ENEM 2020Ciências Humanas

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No protestantismo ascético, temos não apenas a clara noção da primazia da ética sobre o mundo, mas também a mitigação dos efeitos da dupla moral judaica (uma moral interna para os irmãos de crença e outra externa para os infiéis). O desafio aqui é o da ética, que quer deixar de ser um ideal eventual e ocasional (que exige dos virtuosos religiosos quase sempre uma “fuga do mundo”, como na prática monástica cristã medieval) para tornar-se efetivamente uma lei prática e cotidiana “dentro do mundo”.

SOUZA, J. A ética protestante e a ideologia do atraso brasileiro.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 38, out. 1998.

Retomando o pensamento de Max Weber, o texto apresenta a tensão entre positividade ético-religiosa e esferas mundanas de ação. Nessa perspectiva, a ética protestante é compreendida como
A
vinculada ao abandono da felicidade terrena.
B
contrária aos princípios econômicos liberais.
C
promovedora da dimensão política da vida cotidiana.
D
estimuladora da igualdade social como direito divino.
adequada ao desenvolvimento do capitalismo moderno.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

A questão aborda um dos temas mais clássicos da Sociologia: o pensamento de Max Weber, especificamente sua tese desenvolvida no livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Para resolvermos, precisamos entender o conceito de ascetismo intramundano (ou ascetismo dentro do mundo) proposto por Weber. O texto de apoio destaca que, no protestantismo ascético (como o calvinismo), a ética religiosa deixou de ser uma "fuga do mundo" — como ocorria com os monges católicos na Idade Média, que se isolavam em mosteiros — e passou a ser praticada no dia a dia, "dentro do mundo".

Segundo Weber, a ética protestante introduziu a ideia de vocação (o trabalho como um chamado divino) e a crença na predestinação. Como os fiéis não sabiam se estavam salvos ou condenados, eles buscavam sinais do favor divino no sucesso de seu trabalho. Isso gerou uma conduta de vida extremamente disciplinada: trabalhava-se muito, de forma metódica, e evitava-se o ócio, o luxo e os prazeres mundanos (ascetismo).

Qual foi a consequência prática e não intencional dessa ética? Ao trabalhar arduamente e não gastar o dinheiro com luxos, os protestantes acabaram acumulando riquezas. Esse capital acumulado era reinvestido no próprio trabalho ou negócio. Essa mentalidade de dedicação ao trabalho, poupança e reinvestimento é exatamente o que Weber chama de "espírito do capitalismo".

Portanto, a ética protestante, ao trazer a disciplina religiosa para as atividades econômicas cotidianas, criou as bases comportamentais e morais que foram adequadas ao desenvolvimento do capitalismo moderno.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta, pois a ética protestante não abandona o mundo terreno, mas atua fortemente nele através do trabalho.
  • B está incorreta, pois ela impulsionou práticas que convergem com o capitalismo e, posteriormente, com o liberalismo econômico.
  • C e D estão incorretas, pois o foco da tese weberiana nesse contexto não é a política ou a igualdade social, mas sim a relação entre a moral religiosa e a conduta econômica.
  • E está correta, pois resume perfeitamente a tese central de Max Weber sobre a afinidade eletiva entre o protestantismo ascético e o surgimento do capitalismo moderno.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.