Questão 123 do ENEM 2011Linguagens

ENEM 2011Linguagens1ª aplicação

Nós adoraríamos dizer que somos perfeitos. Que somos infalíveis. Que não cometemos nem mesmo o menor deslize. E só não falamos isso por um pequeno detalhe: seria uma mentira. Aliás, em vez de usar a palavra “mentira”, como acabamos de fazer, poderíamos optar por um eufemismo. “Meia-verdade”, por exemplo, seria um termo muito menos agressivo. Mas nós não usamos esta palavra simplesmente porque não acreditamos que exista uma “Meia-verdade”. Para o Conar, Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, existem a verdade e a mentira. Existem a honestidade e a desonestidade. Absolutamente nada no meio. O Conar nasceu há 29 anos (viu só? não arredondamos para 30) com a missão de zelar pela ética na publicidade. Não fazemos isso porque somos bonzinhos (gostaríamos de dizer isso, mas, mais uma vez, seria mentira). Fazemos isso porque é a única forma da propaganda ter o máximo de credibilidade. E, cá entre nós, para que serviria a propaganda se o consumidor não acreditasse nela?
Qualquer pessoa que se sinta enganada por uma peça publicitária pode fazer uma reclamação ao Conar. Ele analisa cuidadosamente todas as denúncias e, quando é o caso, aplica a punição.

Anúncio veiculado na Revista Veja. São Paulo: Abril. Ed. 2120, ano 42, n° 27, 8 jul. 2009.

Considerando a autoria e a seleção lexical desse texto, bem como os argumentos nele mobilizados, constata-se que o objetivo do autor do texto é
informar os consumidores em geral sobre a atuação do Conar.
Resposta correta
B
conscientizar publicitários do compromisso ético ao elaborar suas peças publicitárias.
C
alertar chefes de família, para que eles fiscalizem o conteúdo das propagandas veiculadas pela mídia.
D
chamar a atenção de empresários e anunciantes em geral para suas responsabilidades ao contratarem publicitários sem ética.
E
chamar a atenção de empresas para os efeitos nocivos que elas podem causar à sociedade, se compactuarem com propagandas enganosas.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

O gênero: um anúncio institucional

O texto é um anúncio institucional do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária). Para identificar o objetivo de um texto, vale observar três pilares: quem escreve, onde o texto circula e com quem ele tenta dialogar.

O anúncio foi veiculado na Revista Veja, um periódico de grande circulação nacional voltado ao público em geral. Esse dado já é uma pista forte: a mensagem não se restringe a um nicho de profissionais de publicidade, mas se dirige à sociedade como um todo.

A construção da imagem de credibilidade

O autor emprega uma linguagem acessível, didática e levemente autoirônica para explicar o que é o Conar. A instituição constrói para si uma imagem de honestidade ao rejeitar o conceito de "meia-verdade": para o Conar, só existem a verdade e a mentira, a honestidade e a desonestidade, "absolutamente nada no meio".

Essa autoironia aparece de forma bem-humorada na peça: o anúncio brinca com a própria coerência ao afirmar que não arredondou os 29 anos para 30 e ao apresentar uma frase de efeito revisada, deixando à mostra uma correção sobre a suposta eficiência total do órgão. O recurso reforça, de modo espirituoso, a ideia de que o Conar não maquia informações — nem sobre os anunciantes, nem sobre si mesmo.

O texto argumenta ainda que a propaganda só tem utilidade se o consumidor acreditar nela. Logo, zelar pela ética não é ser "bonzinho", mas garantir a credibilidade do próprio mercado publicitário.

O chamado à ação define o interlocutor

O ponto decisivo está no fechamento: "Qualquer pessoa que se sinta enganada por uma peça publicitária pode fazer uma reclamação ao Conar." Essa frase define claramente o interlocutor: o cidadão comum, o consumidor. O Conar se apresenta ao público, explica sua função e mostra que existe um canal de denúncia à disposição de todos.

Avaliação das alternativas

  • A (Correta): o objetivo central é informar os consumidores em geral sobre a existência, a função e a forma de atuação do Conar, mostrando a quem recorrer diante de uma propaganda enganosa.
  • B (Incorreta): é a principal distração. Embora o tema seja a ética na publicidade, o veículo (revista de circulação geral) e o convite a "qualquer pessoa" indicam que o alvo não são os publicitários — se fosse, o anúncio estaria numa revista especializada do setor.
  • C (Incorreta): restringe indevidamente o público a "chefes de família", enquanto o texto convoca explicitamente "qualquer pessoa".
  • D e E (Incorretas): erram o alvo da comunicação, que não são empresários, anunciantes ou empresas em geral, mas o consumidor que lê a revista.

A alternativa correta é a A.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.