Questão 85 do ENEM 2019Ciências Humanas

ENEM 2019Ciências Humanas1ª aplicação

“Nossa cultura não cabe nos seus museus”.

TOLENTINO, A. B. Patrimônio cultural e discursos museológicos. Midas, n. 6, 2016.

Produzida no Chile, no final da década de 1970, a imagem expressa um conflito entre culturas e sua presença em museus decorrente da:
A
valorização do mercado das obras de arte.
definição dos critérios de criação de acervos.
Resposta correta
C
ampliação da rede de instituições de memória.
D
burocratização do acesso dos espaços expositivos.
E
fragmentação dos territórios das comunidades representadas.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

A Mensagem do Mural

O ponto central da imagem está numa frase de protesto pintada na parede: "Nuestra cultura no cabe en sus museos" (Nossa cultura não cabe nos seus museus), acompanhada de retratos emoldurados. Para responder, o que importa é entender o sentido desse "não caber".

Não se trata de uma limitação de espaço físico — como se o prédio do museu fosse pequeno demais. Trata-se de uma incompatibilidade conceitual e cultural entre o modo de vida dos povos originários e a forma como os museus tradicionais selecionam e exibem o patrimônio.

O Choque de Visões de Mundo

Historicamente, os museus tradicionais foram moldados por uma visão eurocêntrica. O modelo clássico de museu funciona selecionando objetos, retirando-os de seu contexto original, "congelando-os" no tempo e exibindo-os em vitrines, muitas vezes como curiosidades exóticas ou artefatos do passado.

Por outro lado, a cultura dos povos indígenas é essencialmente viva, dinâmica e, em grande parte, imaterial. Ela existe na relação com a terra, na oralidade, nas danças, nos rituais e no uso cotidiano e sagrado de seus objetos. Quando um museu tradicional tenta enquadrar essa cultura dentro de uma redoma de vidro, ele acaba descaracterizando-a. Uma dança ancestral ou a espiritualidade de um povo não podem ser penduradas em uma parede como um quadro. É por isso que a cultura deles "não cabe" ali.

Analisando as Alternativas

O conflito exposto nasce de quem tem o poder de decidir o que entra no museu e como isso é exposto. Ou seja, o problema central está nas regras e nos padrões utilizados pelas instituições para selecionar o que é considerado patrimônio.

Isso nos leva diretamente à alternativa B. A definição dos critérios de criação de acervos dos museus tradicionais é excludente, pois utiliza uma "régua" ocidental que é incapaz de abarcar e respeitar a complexidade da cultura viva dos povos originários.

Vamos entender por que as outras opções não se encaixam:

  • A) valorização do mercado das obras de arte: O protesto não é sobre o valor financeiro das peças ou sobre o capitalismo no mundo da arte, mas sim sobre identidade, memória e representatividade.
  • C) ampliação da rede de instituições de memória: O problema é qualitativo (a forma como o museu funciona), não quantitativo. Construir mais museus com a mesma mentalidade não faria a cultura indígena "caber" neles.
  • D) burocratização do acesso dos espaços expositivos: Cuidado com essa pegadinha. Burocratizar o acesso seria cobrar ingressos caros ou dificultar a entrada de visitantes. O mural não reclama que as pessoas não conseguem entrar no prédio, mas sim que a natureza da cultura não se adequa ao formato da exposição.
  • E) fragmentação dos territórios das comunidades representadas: A perda de terras é um problema real e gravíssimo. No entanto, a questão exige a interpretação específica da frase do mural, que direciona a crítica diretamente à instituição museológica ("seus museus") e à gestão da memória, e não à questão fundiária.

Portanto, a alternativa correta é a B.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2019 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.