Questão 125 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens3ª aplicação

O adolescente

A vida é tão bela que chega a dar medo.
Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita,
mas
esse medo fascinante e fremente de curiosidade
[que faz
o jovem felino seguir para frente farejando o vento
ao sair, a primeira vez, da gruta.
Medo que ofusca: luz!
Cumplicentemente,
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:
Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua
– vestida apenas com o teu desejo!

QUINTANA, M. Nariz de vidro. São Paulo: Moderna, 1998.

Ao abordar uma etapa do desenvolvimento humano, o poema mobiliza diferentes estratégias de composição. O principal recurso expressivo empregado para a construção de uma imagem da adolescência é a
A
hipérbole do medo.
B
metáfora da estátua.
personificação da vida.
Resposta correta
D
antítese entre juventude e velhice.
E
comparação entre desejo e nudez.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

O eixo da construção da imagem da adolescência está no desfecho do poema, onde o poeta atribui ações humanas à "vida". Vamos observar os versos finais, que consolidam a mensagem central:

"Adolescente, olha! A vida é nova... A vida é nova e anda nua – vestida apenas com o teu desejo!"

Nesses versos, o poeta confere características e ações tipicamente humanas — como "andar nua" e estar "vestida" — a um conceito abstrato, que é a "vida". Quando atribuímos qualidades, sentimentos ou ações de seres humanos (ou vivos) a seres inanimados ou a ideias abstratas, empregamos a figura de linguagem chamada personificação (ou prosopopeia).

Essa personificação é o recurso expressivo principal porque traduz a essência da adolescência descrita no poema: uma fase de descoberta intensa, em que o jovem se depara com o mundo (a vida "nua", pronta para ser explorada) e projeta nele as próprias vontades e expectativas (a vida "vestida" pelo desejo do adolescente).

Por que as outras alternativas estão incorretas:

  • A) hipérbole do medo: A hipérbole é um exagero intencional. Embora o poema fale bastante sobre o medo, ele o descreve de forma metafórica (como o "jovem felino") e não por meio de um exagero retórico explícito.
  • B) metáfora da estátua: A "estátua" aparece para ilustrar o medo que paralisa. No entanto, o eu lírico deixa claro que esse não é o medo do adolescente ("Não o medo que paralisa e gela, / estátua súbita").
  • D) antítese entre juventude e velhice: Há, de fato, um contraste entre o segredo "velho como o mundo" e a vida "nova". Porém, essa oposição serve para preparar a revelação final, não sendo o recurso central que define a adolescência.
  • E) comparação entre desejo e nudez: O poema não estabelece uma comparação (que exigiria conectivos como "tal qual", "como"). Ele afirma que a vida está nua e que o desejo é o que a veste, criando uma relação de complemento, não de semelhança.

Portanto, o principal recurso utilizado para construir a imagem dessa fase da vida é a personificação da vida.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.