Questão 134 do ENEM 2012Linguagens

ENEM 2012Linguagens2ª aplicação

O bonde abre a viagem,
No banco ninguém,
Estou só, stou sem.
Depois sobe um homem,
No banco sentou,
Companheiro vou.
O bonde está cheio,
De novo porém
Não sou mais ninguém.

ANDRADE, M. Poesias completas. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.

Em um texto literário, é comum que os recursos poéticos e linguísticos participem do significado do texto, isto é, forma e conteúdo se relacionam significativamente. Com relação ao poema de Mário de Andrade, a correlação entre um recurso formal e um aspecto da significação do texto é
a sucessão de orações coordenadas, que remete à sucessão de cenas e emoções sentidas pelo eu lírico ao longo da viagem.
Resposta correta
B
a elisão dos verbos, recurso estilístico constante no poema, que acentua o ritmo acelerado da modernidade.
C
o emprego de versos curtos e irregulares em sua métrica, que reproduzem uma viagem de bonde, com suas paradas e retomadas de movimento.
D
a sonoridade do poema, carregada de sons nasais, que representa a tristeza do eu lírico ao longo de toda a viagem.
E
a ausência de rima nos versos, recurso muito utilizado pelos modernistas, que aproxima a linguagem do poema da linguagem cotidiana.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

A questão exige a compreensão de como a estrutura de um texto literário (sua forma) atua na construção do seu sentido (seu conteúdo). No poema de Mário de Andrade, observamos uma narrativa breve sobre uma viagem de bonde, dividida em três momentos que refletem os estados emocionais do eu lírico.

Primeiro, vamos analisar o conteúdo do poema, que se divide em três cenas ou "flashes":

  1. Solidão inicial: "O bonde abre a viagem, / No banco ninguém, / Estou só, stou sem."
  2. Breve companhia: "Depois sobe um homem, / No banco sentou, / Companheiro vou."
  3. Solidão na multidão: "O bonde está cheio, / De novo porém / Não sou mais ninguém."

Agora, olhando para a forma, notamos que o autor constrói o texto por meio de versos muito curtos e frases diretas. Do ponto de vista sintático, o poema é marcado por uma sucessão de orações coordenadas, muitas vezes assindéticas (sem conjunções ligando-as, separadas apenas por pontuação). Exemplos claros são "O bonde abre a viagem", "Estou só", "stou sem", "sobe um homem", "No banco sentou".

Essa escolha formal não é acidental. A justaposição dessas orações curtas e independentes cria um ritmo fragmentado que imita perfeitamente a sucessão rápida de eventos (as cenas da viagem) e as mudanças repentinas nos sentimentos do eu lírico (a transição da solidão para a companhia e, em seguida, para o anonimato na multidão). É como se cada oração fosse um corte de câmera em um filme, capturando um instante específico da percepção do personagem.

Vamos analisar por que as outras alternativas não são a melhor resposta:

  • Alternativa B: A elisão (omissão) de verbos ocorre em "No banco ninguém" (onde se subentende "não há"), mas não é um recurso constante, já que o poema está cheio de verbos explícitos (abreabre, estouestou, sobesobe, sentousentou, vouvou, estaˊestá, sousou).
  • Alternativa C: Embora os versos sejam curtos, associá-los estritamente às paradas físicas do bonde ignora o aspecto emocional do poema, que é o seu verdadeiro foco. A alternativa A é muito mais completa ao ligar a forma às emoções do eu lírico.
  • Alternativa D: A presença de sons nasais (ningueˊmninguém, semsem, homemhomem) existe, mas afirmar que eles representam exclusivamente a "tristeza" é uma interpretação subjetiva e redutora, pois o poema também passa por um momento de alívio e companhia.
  • Alternativa E: A ausência de rimas regulares é, de fato, uma característica modernista que aproxima a poesia da fala cotidiana. No entanto, essa é uma afirmação genérica que se aplica a quase toda a poesia da primeira fase do Modernismo, não explicando a relação específica entre forma e conteúdo deste poema em particular.

Portanto, a alternativa que melhor descreve a correlação exata entre a estrutura do texto e o seu significado profundo é a que aponta para a sucessão de orações coordenadas como reflexo da sucessão de cenas e emoções.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2012 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.