Questão 119 do ENEM 2010Linguagens

ENEM 2010Linguagens2ª aplicação
Ilustração de Ziraldo mostrando um casal de jovens de costas caminhando por uma estrada. Acima deles, o texto: 'QUEM ESCOLHE SEU CAMINHO É VOCÊ NÃO A DROGA!'

Disponível em: http://ziraldo.blogtv.uol.com.br. Acesso em: 27 jul. 2010.

O cartaz de Ziraldo faz parte de uma campanha contra o uso de drogas. Essa abordagem, que se diferencia das de outras campanhas, pode ser identificada

O cartaz de Ziraldo faz parte de uma campanha contra o uso de drogas. Essa abordagem, que se diferencia das de outras campanhas, pode ser identificada
A
pela seleção do público alvo da campanha, representado, no cartaz, pelo casal de jovens.
B
pela escolha temática do cartaz, cujo texto configura uma ordem aos usuários e não usuários: diga não às drogas.
pela ausência intencional do acento grave, que constrói a ideia de que não é a droga que faz a cabeça do jovem.
Resposta correta
D
pelo uso da ironia, na oposição imposta entre a seriedade do tema e a ambiência amena que envolve a cena.
E
pela criação de um texto de sátira à postura dos jovens, que não possuem autonomia para seguir seus caminhos.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

O diferencial desta campanha não está na imagem em si, mas em uma jogada gramatical no texto do cartaz. Por isso, o caminho da questão passa por analisar a estrutura sintática da frase.

A maioria das campanhas contra as drogas usa o slogan imperativo do tipo "Diga não às drogas" ou "Diga não à droga". Nesses casos, ocorre a crase (acento grave): temos a preposição "a", exigida pela regência de quem diz não a algo, somada ao artigo "a(s)" que acompanha o substantivo "droga(s)". A droga aparece aí como alvo de uma proibição.

O cartaz de Ziraldo, porém, inova ao omitir o acento grave, escrevendo "não a droga" sem crase. Essa ausência não é um erro ortográfico, e sim uma escolha intencional que muda a função sintática da expressão. Sem a preposição, "a droga" deixa de ser objeto de uma proibição e passa a funcionar como sujeito de "escolher".

Reconstruindo o sentido: quem escolhe o caminho do jovem é ele próprio, e não a droga. A mensagem deixa de ser uma ordem para "dizer não" e passa a ser uma afirmação de autonomia: quem decide o rumo da vida é a pessoa, não a substância. É exatamente a ausência da crase que constrói a ideia de que não é a droga quem "faz a cabeça" do jovem.

Analisando as alternativas:

  • A) Incorreta. A presença de jovens é elemento comum em campanhas antidrogas; o diferencial está na construção do texto, não na escolha do público-alvo.
  • B) Incorreta. O texto não configura uma ordem do tipo "diga não às drogas"; sua estrutura é uma afirmação sobre autonomia, não um imperativo de proibição.
  • C) Correta. A ausência intencional do acento grave transforma "a droga" em sujeito, construindo a ideia de que não é a droga que decide o caminho do jovem — o diferencial da abordagem.
  • D) Incorreta. Não é a ironia o recurso central; o efeito se apoia na construção sintática, e não numa oposição irônica de tom.
  • E) Incorreta. O cartaz não satiriza os jovens; ao contrário, os incentiva a assumir o controle de seus próprios caminhos.

O diferencial da campanha está, portanto, na omissão da crase, que reforça a autonomia do indivíduo — alternativa C.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2010 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.