Questão 16 do ENEM 2025Linguagens

ENEM 2025LinguagensReaplicação

O diplomático

Era solteiro, por obra das circunstâncias, não de vocação. Em rapaz teve alguns namoricos de esquina, mas com o tempo apareceu-lhe a comichão das grandezas, e foi isto que lhe prolongou o celibato até os quarenta e um anos, em que o vemos. Cobiçava alguma noiva superior a ele e à roda em que vivia, e gastou o tempo em esperá-la. Chegou a frequentar os bailes de um advogado célebre e rico, para quem copiava papéis, e que o protegia muito. Tinha nos bailes a mesma posição subalterna do escritório; passava a noite vagando pelos corredores, espiando o salão, vendo passar as senhoras, devorando com os olhos uma multidão de espáduas magníficas e talhes graciosos. Invejava os homens, e copiava-os. Saía dali excitado e resoluto. Em falta de bailes, ia às festas de igreja, onde poderia ver algumas das primeiras moças da cidade. Também era certo no saguão do paço imperial, em dia de cortejo, para ver entrar as grandes damas e as pessoas da corte, ministros, generais, diplomatas, desembargadores, e conhecia tudo e todos, pessoas e carruagens. Voltava da festa e do cortejo, como voltava do baile, impetuoso, ardente, capaz de arrebatar de um lance a palma da fortuna.

O pior é que entre a espiga e a mão há o tal muro do poeta, e o Rangel não era homem de saltar muros. De imaginação fazia tudo, raptava mulheres e destruía cidades. Mais de uma vez foi, consigo mesmo, ministro de Estado, e fartou-se de cortesias e decretos. Chegou ao extremo de aclamar-se imperador, um dia, dois de dezembro, ao voltar da parada no Largo do Paço; imaginou para isso uma revolução em que derramou algum sangue, pouco, e uma ditadura benéfica, em que apenas vingou alguns pequenos desgostos de escrevente. Cá fora, porém, todas as suas proezas eram fábulas. Na realidade, era pacato e discreto.

ASSIS, M. de. 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Cia. das Letras, 2007.

O trecho desse conto de Machado de Assis manifesta o ideário realista do século XIX ao
A
apresentar personagem com atitudes ingênuas.
B
descrever cenários de forma detalhada e crítica.
C
recorrer a um narrador-observador externo ao relato.
expor comportamentos de uma classe social frustrada.
Resposta correta
E
metaforizar os sentimentos idealistas sobre o casamento.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver esta questão, é preciso relembrar as principais características do Realismo, movimento literário do século XIX do qual Machado de Assis é o maior expoente no Brasil. O Realismo surge em oposição ao Romantismo, buscando retratar a sociedade e o ser humano de forma objetiva, crua e analítica. No lugar de heróis idealizados, temos personagens comuns, muitas vezes medíocres, movidos por interesses, vaidades e frustrações.

No trecho do conto O diplomático, o narrador apresenta Rangel, um homem de quarenta e um anos que copia papéis para um advogado rico. Veja como o texto constrói o perfil psicológico e social do personagem:

  1. Ambição e subalternidade: Rangel tem a "comichão das grandezas" e cobiça uma noiva superior a ele e à roda em que vive. Frequenta os bailes da elite, mas mantém uma "posição subalterna", apenas observando, invejando e copiando os homens ricos.
  2. Contraste entre imaginação e realidade: na imaginação, Rangel é poderoso — rapta mulheres, destrói cidades, torna-se ministro e até se aclama imperador. Na vida real, porém, esbarra no "muro do poeta": "não era homem de saltar muros". Suas proezas, como diz o próprio texto, "eram fábulas".

Esse abismo entre o que o personagem deseja ser (a elite poderosa) e o que de fato é (um escrevente subalterno e inerte) ilustra a frustração de uma classe social que vive à margem da aristocracia, desejando ascender, mas sem meios nem coragem para tanto.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta porque Rangel não é ingênuo; ele é calculista em seus desejos, invejoso e plenamente consciente das posições sociais, ainda que inerte.
  • B está incorreta porque o foco do trecho não é a descrição detalhada de cenários (mais própria do Naturalismo ou do Parnasianismo), mas sim a sondagem psicológica do personagem.
  • C está incorreta porque o narrador aqui é onisciente (sabe o que se passa na mente e na imaginação de Rangel), e não apenas um observador externo.
  • D está correta. O texto expõe o comportamento de um homem que representa uma classe social subalterna e frustrada, que almeja a grandeza da elite, mas cuja vivência se restringe à mediocridade e à imaginação.
  • E está incorreta porque o Realismo não "metaforiza sentimentos idealistas"; ao contrário, desconstrói-os, mostrando as motivações sociais por trás de instituições como o casamento.

Portanto, a genialidade de Machado de Assis neste trecho está em expor a mediocridade e a frustração humana por meio da análise social e psicológica, o que confirma a alternativa D.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.