Questão 60 do ENEM 2017Ciências Humanas

ENEM 2017Ciências Humanas2ª aplicação

O garfo muito grande, com dois dentes, que era usado para servir as carnes aos convidados, é antigo, mas não o garfo individual. Este data mais ou menos do século XVI e difundiu-se a partir de Veneza e da Itália em geral, mas com lentidão. O uso só se generalizaria por volta de 1750.

BRAUDEL, F. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII; as estruturas do cotidiano. São Paulo: Martins Fontes, 1977 (adaptado).

No processo de transição para a modernidade, o uso do objeto descrito relaciona-se à
construção de hábitos sociais.
Resposta correta
B
introdução de medidas sanitárias.
C
ampliação das refeições familiares.
D
valorização da cultura renascentista.
E
incorporação do comportamento laico.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

O texto base da questão, escrito pelo historiador Fernand Braudel, aborda a introdução e a lenta popularização do garfo individual na Europa entre os séculos XVI e XVIII. Para entender o que esse objeto representa na transição para a modernidade, precisamos recorrer aos estudos sobre a história do cotidiano e das mentalidades.

Um conceito fundamental para essa questão é o de "processo civilizador", amplamente estudado pelo sociólogo Norbert Elias. Durante a transição da Idade Média para a Idade Moderna, a nobreza e, posteriormente, a burguesia europeia começaram a desenvolver e adotar um conjunto de regras de etiqueta e boas maneiras. O objetivo dessas regras era refinar o comportamento em público, controlar os impulsos corporais e, principalmente, criar mecanismos de distinção social.

O uso do garfo individual substituiu o hábito de comer com as mãos ou de compartilhar utensílios, o que antes era comum. Essa mudança não ocorreu inicialmente por preocupações sanitárias ou médicas (como sugere a alternativa B), já que a microbiologia e as noções modernas de higiene só surgiriam muito tempo depois, no século XIX. Na verdade, a adoção do garfo estava profundamente ligada à construção de novos hábitos sociais. Saber usar os talheres corretamente tornou-se um sinal de civilidade, educação e status, separando a elite das camadas mais populares.

Analisando as outras alternativas:

  • A alternativa B está incorreta porque, como vimos, a motivação primária não era sanitária, mas sim social e de etiqueta.
  • A alternativa C não faz sentido, pois o tamanho ou a ampliação das refeições familiares não dependem do uso de garfos individuais.
  • A alternativa D é restrita. Embora o garfo tenha se difundido a partir da Itália (berço do Renascimento), o seu uso generalizado até o século XVIII está ligado a uma mudança comportamental mais ampla (a etiqueta cortesã) e não apenas à valorização da cultura renascentista em si.
  • A alternativa E está incorreta porque o uso de talheres não tem relação com a laicização (separação entre religião e vida civil).

Portanto, a introdução do garfo individual reflete a construção de novos hábitos sociais e de etiqueta que marcaram a modernidade europeia.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2017 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.