Questão 118 do ENEM 2012Linguagens

ENEM 2012Linguagens2ª aplicação

O internetês na escola

O internetês — expressão grafolinguística criada na internet pelos adolescentes na última década — foi, durante algum tempo, um bicho de sete cabeças para gramáticos e estudiosos da língua. Eles temiam que as abreviações fonéticas (onde “casa” vira ksa; e “aqui” vira aki) comprometessem o uso da norma culta do português para além das fronteiras cibernéticas. Mas, ao que tudo indica, o temido internetês não passa de um simpático bichinho de uma cabecinha só. Ainda que a maioria dos professores e educadores se preocupe com ele, a ocorrência do internetês nas provas escolares, vestibulares e em concursos públicos é insignificante. Essa forma de expressão parece ainda estar restrita a seu hábitat natural. Aliás, aí está a questão: saber separar bem a hora em que podemos escrever de qq jto, da hora em que não podemos escrever de “qualquer jeito”. Mas, e para um adolescente que fica várias horas “teclando” que nem louco nos instant messengers e chats da vida, é fácil virar a “chavinha” no cérebro do internetês para o português culto? “Essa dificuldade será proporcional ao contato que o adolescente tenha com textos na forma culta, como jornais ou obras literárias. Dependendo deste contato, ele terá mais facilidade para abrir mão do internetês” —explica Eduardo de Almeida Navarro, professor livre-docente de língua tupi e literatura colonial da USP.

RAMPAZZO, F. Disponível em: www.revistalingua.com.br. Acesso em: 1 mar. 2012 (adaptado).

Segundo o texto, a interação virtual favoreceu o surgimento da modalidade linguística conhecida como internetês. Quanto à influência do internetês no uso da forma culta da língua, infere-se que
A
a ocorrência de termos do internetês em situações formais de escrita aponta a necessidade de a língua ser vista como herança cultural que merece ser bem cuidada.
B
a dificuldade dos adolescentes para produzirem textos mais complexos é evidente, sendo consequência da expansão do uso indiscriminado da internet por esse público.
C
a carência de vocabulário culto na fala de jovens tem sido um alerta quanto ao uso massivo da internet, principalmente no que concerne a mensagens instantâneas.
D
a criação de neologismos no campo cibernético é inevitável e restringe a capacidade de compreensão dos internautas quando precisam lidar com leitura de textos formais.
a alternância de variante linguística é uma habilidade dos usuários da língua e é acionada pelos jovens de acordo com suas necessidades discursivas.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

O texto aborda o fenômeno do "internetês" e como ele se relaciona com a norma culta da língua portuguesa. Logo no início, o autor desmistifica a ideia de que o uso de abreviações na internet prejudicaria a escrita formal dos jovens, afirmando que a presença do internetês em provas e vestibulares é "insignificante".

O ponto central do texto está na capacidade do falante de adequar a sua linguagem ao contexto, o que é chamado na linguística de adequação linguística. O texto usa a metáfora de "virar a chavinha" para ilustrar essa habilidade: o jovem sabe que no ambiente virtual pode escrever "de qq jto", mas em uma redação escolar ou em um texto formal deve usar a norma culta. Essa facilidade de transição, segundo o texto, é proporcional ao hábito de leitura do adolescente.

Vamos analisar as alternativas com base nessa compreensão:

  • A alternativa A está incorreta porque o texto afirma justamente o contrário: a ocorrência do internetês em situações formais é insignificante, não sendo um problema frequente.
  • As alternativas B, C e D trazem visões pessimistas e alarmistas que não são sustentadas pelo texto. O autor não afirma que a internet causa dificuldade na produção de textos complexos, carência de vocabulário ou restrição na capacidade de compreensão.
  • A alternativa E é a correta. Ela resume perfeitamente a ideia de "virar a chavinha": a alternância entre variantes linguísticas (como o internetês e a norma culta) é uma habilidade natural dos usuários da língua, sendo acionada pelos jovens de acordo com o contexto e a situação de comunicação (suas necessidades discursivas).

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Fonte: prova oficial do ENEM 2012 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.