Questão 129 do ENEM 2012Linguagens

ENEM 2012Linguagens1ª aplicação

O léxico e a cultura

Potencialmente, todas as línguas de todos os tempos podem candidatar-se a expressar qualquer conteúdo. A pesquisa linguística do século XX demonstrou que não há diferença qualitativa entre os idiomas do mundo — ou seja, não há idiomas gramaticalmente mais primitivos ou mais desenvolvidos. Entretanto, para que possa ser efetivamente utilizada, essa igualdade potencial precisa realizar-se na prática histórica do idioma, o que nem sempre acontece. Teoricamente, uma língua com pouca tradição escrita (como as línguas indígenas brasileiras) ou uma língua já extinta (como o latim ou o grego clássicos) podem ser empregadas para falar sobre qualquer assunto, como, digamos, física quântica ou biologia molecular. Na prática, contudo, não é possível, de uma hora para outra, expressar tais conteúdos em camaiurá ou latim, simplesmente porque não haveria vocabulário próprio para esses conteúdos. É perfeitamente possível desenvolver esse vocabulário específico, seja por meio de empréstimos de outras línguas, seja por meio da criação de novos termos na língua em questão, mas tal tarefa não se realizaria em pouco tempo nem com pouco esforço.

BEARZOTI FILHO, P. Miniaurélio: o dicionário da língua portuguesa. Manual do professor. Curitiba: Positivo, 2004 (fragmento).

Estudos contemporâneos mostram que cada língua possui sua própria complexidade e dinâmica de funcionamento. O texto ressalta essa dinâmica, na medida em que enfatiza
A
a inexistência de conteúdo comum a todas as línguas, pois o léxico contempla visão de mundo particular específica de uma cultura.
B
a existência de línguas limitadas por não permitirem ao falante nativo se comunicar perfeitamente a respeito de qualquer conteúdo.
C
a tendência a serem mais restritos o vocabulário e a gramática de línguas indígenas, se comparados com outras línguas de origem europeia.
a existência de diferenças vocabulares entre os idiomas, especificidades relacionadas à própria cultura dos falantes de uma comunidade.
Resposta correta
E
a atribuição de maior importância sociocultural às línguas contemporâneas, pois permitem que sejam abordadas quaisquer temáticas, sem dificuldades.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

O texto apresentado aborda um tema fundamental nos estudos linguísticos: a relação entre a estrutura de uma língua, o seu vocabulário (léxico) e a cultura da comunidade que a fala. Para resolver essa questão, precisamos entender a diferença que o autor estabelece entre a potencialidade de um idioma e a sua realização prática.

Logo no início, o autor derruba qualquer ideia de preconceito linguístico ao afirmar que "não há idiomas gramaticalmente mais primitivos ou mais desenvolvidos". Ou seja, do ponto de vista estrutural e gramatical, todas as línguas são igualmente complexas e têm o potencial de expressar qualquer ideia.

No entanto, o texto introduz um contraponto prático: o vocabulário. O léxico de uma língua é construído historicamente para atender às necessidades de comunicação de seus falantes. Se uma comunidade (como os falantes de camaiurá ou os antigos romanos que falavam latim) não desenvolveu estudos em física quântica ou biologia molecular, é natural que não existam palavras prontas nesses idiomas para descrever tais conceitos. Isso não significa que a língua seja limitada ou inferior, mas sim que o seu vocabulário reflete a cultura, a história e a visão de mundo daquela sociedade específica. O autor ainda ressalta que é perfeitamente possível criar essas palavras (neologismos) ou pegá-las emprestadas de outros idiomas, embora isso exija tempo e esforço.

Com isso em mente, vamos analisar as alternativas para encontrar aquela que melhor resume a ênfase do texto:

  • Alternativa A: Incorreta. O texto não afirma que inexiste conteúdo comum a todas as línguas. Conceitos universais (como família, natureza, sentimentos) estão presentes em todos os idiomas. A questão central gira em torno de conteúdos muito específicos.
  • Alternativa B: Incorreta. Esta é uma armadilha perigosa, pois sugere que existem línguas "limitadas", o que contraria frontalmente a tese do autor de que todas as línguas têm "igualdade potencial" e podem desenvolver novos vocabulários. A limitação é apenas momentânea e lexical, não uma falha inerente ao idioma.
  • Alternativa C: Incorreta. A afirmação traz uma visão carregada de preconceito linguístico, sugerindo que línguas indígenas teriam gramática e vocabulário mais restritos que as europeias. O texto diz exatamente o oposto: não há diferença qualitativa ou gramatical entre os idiomas.
  • Alternativa D: Correta. Ela captura perfeitamente a essência do argumento: as diferenças que existem na prática entre os idiomas são de ordem vocabular (lexical), e essas diferenças ocorrem porque o vocabulário está diretamente relacionado às especificidades culturais e históricas da comunidade de falantes.
  • Alternativa E: Incorreta. O texto não atribui maior importância sociocultural às línguas contemporâneas em detrimento de outras. Ele usa tanto uma língua indígena contemporânea (camaiurá) quanto uma língua clássica extinta (latim) para exemplificar o mesmo fenômeno.

Portanto, a dinâmica de funcionamento das línguas ressaltada no texto evidencia como o vocabulário é um espelho da cultura de um povo.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2012 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.