Questão 121 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens3ª aplicação

O mistério do brega

Famoso no seu tempo, o marechal Schönberg (1615-90) ditava a moda em Lisboa, onde seu nome foi aportuguesado para Chumbergas. Consta que ele foi responsável pela popularização dos vastos bigodes tufados na Metrópole. Entre os adeptos estaria o governador da província de Pernambuco, o português Jerônimo de Mendonça Furtado, que, por isso, aqui ganhou o apelido de Chumbregas — variante do aportuguesado Chumbergas. Talvez por ser um homem não muito benquisto na Colônia, o apelido deu origem ao adjetivo xumbrega: “coisa ruim”, “ordinária”. E talvez por ser um homem também da folia, surgiu o verbo xumbregar, que inicialmente teve o sentido de “embriagar-se” e depois veio a adquirir o de “bolinar”, “garanhar”. Dedução lógica: de coisa ruim a bebedeira e atos libidinosos, as palavras xumbrega ou xumbregar chegaram aos anos 60 do século XX na forma reduzida brega, designando locais onde se bebe, se bolina e se ouvem cantores cafonas. E o que inicialmente era substantivo, “música de brega”, acabou virando adjetivo, “música brega” — numa já distante referência a um certo marechal alemão chamado Schönberg.

ARAÚJO, P. C. Revista USP, n. 87, nov. 2010 (adaptado).

O texto trata das mudanças linguísticas que resultaram na palavra “brega”. Ao apresentar as situações cotidianas que favoreceram as reinterpretações do seu sentido original, o autor mostra a importância da
interação oral como um dos agentes responsáveis pela transformação do léxico do português.
Resposta correta
B
compreensão limitada de sons e de palavras para a criação de novas palavras em português.
C
eleição de palavras frequentes e representativas na formação do léxico da língua portuguesa.
D
interferência da documentação histórica na constituição do léxico.
E
realização de ações de portugueses e de brasileiros a fim de padronizar as variedades linguísticas lusitanas.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

A questão aborda o fenômeno da variação e mudança linguística, focando especificamente na evolução etimológica e semântica da palavra "brega".

Analisando o texto, percebemos que a palavra percorreu um longo caminho: começou como o sobrenome alemão Schönberg, foi aportuguesada para Chumbergas em Lisboa, virou o apelido Chumbregas no Brasil, transformou-se no adjetivo xumbrega e no verbo xumbregar, até ser reduzida para brega nos anos 1960.

Esse processo de transformação fonética (mudança nos sons) e semântica (mudança nos significados) ocorreu de forma espontânea por meio do uso da língua no dia a dia. As associações feitas pelas pessoas — ligando o apelido de um governador impopular a "coisa ruim", e seus hábitos de folia a "embriagar-se" — demonstram como a língua viva, falada nas ruas, molda o vocabulário.

Vamos avaliar as alternativas:

A) Correta. O texto ilustra como a interação oral em situações cotidianas (apelidos, festas, conversas informais) atua como um agente transformador do léxico (conjunto de palavras) da língua portuguesa.

B) Incorreta. As mudanças não ocorreram por "compreensão limitada", mas sim por processos naturais de adaptação fonética (aportuguesamento) e expansão de sentidos baseada no contexto social.

C) Incorreta. Não houve uma "eleição" (escolha consciente ou oficial) de palavras, mas sim uma evolução natural e espontânea pelo uso popular.

D) Incorreta. A documentação histórica serve para registrar e comprovar essas mudanças ao longo do tempo, mas não é ela que interfere ou causa a transformação na língua falada.

E) Incorreta. O processo descrito mostra exatamente o oposto de uma padronização; ele evidencia a variação linguística e a criação de novos termos de forma orgânica, sem qualquer intenção de uniformizar a língua.

Portanto, a dinâmica da língua falada e a interação social são os verdadeiros motores dessa evolução vocabular.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.