Questão 125 do ENEM 2014Linguagens

ENEM 2014Linguagens2ª aplicação

O mulato

 

 Ana Rosa cresceu; aprendera de cor a gramática do Sotero dos Reis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de francês e tocava modinhas sentimentais ao violão e ao piano. Não era estúpida; tinha a intuição perfeita da virtude, um modo bonito, e por vezes lamentara não ser mais instruída. Conhecia muitos trabalhos de agulha; bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha de contralto que fazia gosto de ouvir.

 Uma só palavra boiava à superfície dos seus pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia, transformandose em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Ideia parasita, que estrangulava todas as outras ideias.

 — Mulato!

 Esta só palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; as reticências dos que lhe falavam de seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam questões de raça e de sangue.

AZEVEDO, A. O Mulato. São Paulo: Ática, 1996 (fragmento).

O texto de Aluísio Azevedo é representativo do Naturalismo, vigente no final do século XIX. Nesse fragmento, o narrador expressa fidelidade ao discurso naturalista, pois
relaciona a posição social a padrões de comportamento e à condição de raça.
Resposta correta
B
apresenta os homens e as mulheres melhores do que eram no século XIX.
C
mostra a pouca cultura feminina e a distribuição de saberes entre homens e mulheres.
D
ilustra os diferentes modos que um indivíduo tinha de ascender socialmente.
E
critica a educação oferecida às mulheres e os maus-tratos dispensados aos negros.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos conectar a leitura atenta do fragmento de O Mulato, de Aluísio Azevedo, com as características fundamentais do movimento literário ao qual a obra pertence: o Naturalismo.

O Naturalismo, que ganhou força no final do século XIX, foi fortemente influenciado pelo pensamento científico da época, especialmente pelo determinismo. Segundo essa corrente de pensamento, o ser humano não possui livre-arbítrio absoluto, sendo, na verdade, um produto condicionado por três fatores principais: o meio social, o momento histórico e a raça (ou hereditariedade biológica). Na literatura naturalista, os personagens são frequentemente analisados sob essa ótica científica e fatalista, onde seus instintos e sua origem ditam seus destinos.

Ao analisarmos o fragmento fornecido, notamos que a personagem Ana Rosa reflete sobre a palavra "Mulato". Essa palavra cresce em sua mente como uma "tenebrosa nuvem" e passa a explicar todas as atitudes da sociedade maranhense em relação ao protagonista (Raimundo). A "frieza de certas famílias", as "reticências" e a "cautela" ao discutir questões de raça e sangue revelam um preconceito estrutural.

O narrador, ao expor essa situação, está sendo fiel ao discurso naturalista justamente por evidenciar como a condição de raça (ser mulato) determina a posição social do indivíduo e dita os padrões de comportamento da sociedade ao seu redor. O preconceito racial atua como uma barreira determinista que exclui e marginaliza o personagem, independentemente de suas qualidades morais ou intelectuais.

Vamos analisar por que as outras alternativas estão incorretas:

  • B) apresenta os homens e as mulheres melhores do que eram no século XIX. Essa idealização é uma característica do Romantismo, não do Naturalismo, que busca retratar a realidade de forma crua e objetiva, focando muitas vezes nas mazelas humanas.
  • C) mostra a pouca cultura feminina e a distribuição de saberes entre homens e mulheres. Embora o texto mencione a educação de Ana Rosa, o cerne do fragmento e a angústia descrita giram em torno da questão racial e do preconceito, não da distribuição de saberes entre os gêneros.
  • D) ilustra os diferentes modos que um indivíduo tinha de ascender socialmente. O texto faz o oposto: mostra as barreiras invisíveis e o teto de vidro impostos pelo racismo, impedindo a plena aceitação social do protagonista.
  • E) critica a educação oferecida às mulheres e os maus-tratos dispensados aos negros. O foco do trecho não é a violência física (maus-tratos) ou a educação feminina, mas sim o preconceito velado, social e psicológico, que a sociedade maranhense destila contra o mulato.

Portanto, a alternativa que melhor traduz a fidelidade do texto ao Naturalismo é a que relaciona a raça ao determinismo social e comportamental.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.