Questão 22 do ENEM 2016Ciências Humanas

ENEM 2016Ciências Humanas3ª aplicação

Ô ô, com tanto pau no mato
Embaúba* é coroné
Com tanto pau no mato, ê ê
Com tanto pau no mato
Embaúba é coroné

* Embaúba: árvore comum e inútil por ser podre por dentro, segundo o historiador Stanley Stein.

STEIN, S. J. Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990 (adaptado).

Os versos fazem parte de um jongo, gênero poético-musical cantado por escravos e seus descendentes no Brasil no século XIX, e procuram expressar a
A
exploração rural.
B
bravura senhorial.
resistência cultural.
Resposta correta
D
violência escravista.
E
ideologia paternalista.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a letra do jongo apresentada e entender o contexto histórico em que ela foi produzida.

O jongo é uma manifestação cultural de origem africana, muito presente entre os escravizados e seus descendentes na região Sudeste do Brasil durante o século XIX. Ele era cantado em rodas e frequentemente utilizava uma linguagem metafórica e cifrada. Essa linguagem permitia que os escravizados se comunicassem, fizessem críticas e expressassem suas dores e insatisfações sem que os senhores de escravos compreendessem o real significado das mensagens.

No trecho apresentado, temos os versos: "Com tanto pau no mato / Embaúba é coroné". A nota de rodapé nos dá a chave para interpretar a metáfora: a embaúba é descrita como uma árvore "comum e inútil por ser podre por dentro". O termo "coroné" faz referência ao coronel, figura de poder local, geralmente o grande proprietário de terras e senhor de escravos.

Portanto, ao comparar o coronel à embaúba, os escravizados estão fazendo uma crítica velada aos seus senhores, chamando-os de "podres por dentro" e inúteis, apesar da posição de poder que ocupam (como se fossem a árvore escolhida entre tantas outras no mato).

Essa prática de usar a música, a dança e a poesia para criticar o opressor, preservar tradições e manter a coesão do grupo é um exemplo clássico de resistência cultural. Os escravizados não aceitavam passivamente a sua condição; eles resistiam de diversas formas, sendo a manutenção e adaptação de suas práticas culturais uma das mais importantes.

Analisando as alternativas:

  • A) exploração rural: Embora a exploração fosse a realidade, o verso não busca expressar a exploração em si, mas sim uma reação a ela.
  • B) bravura senhorial: O verso faz exatamente o oposto, ridicularizando o senhor.
  • C) resistência cultural: Correta. O uso de metáforas no jongo para criticar os senhores demonstra a resistência dos escravizados através de sua cultura.
  • D) violência escravista: A violência era o pano de fundo, mas a intenção do canto é a resistência e a crítica.
  • E) ideologia paternalista: O verso rompe com qualquer visão paternalista, pois ataca diretamente o caráter do senhor.

Assim, a alternativa correta é a que identifica essa manifestação como uma forma de resistência.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.