Questão 58 do ENEM 2020Ciências Humanas

ENEM 2020Ciências Humanas1ª aplicação

O planejamento deixou de controlar o crescimento urbano e passou a encorajá-lo por todos os meios possíveis e imagináveis. Cidades, a nova mensagem soou em alto e bom som, eram máquinas de produzir riquezas: o primeiro e principal objetivo do planejamento devia ser o de azeitar a máquina.

HALL, P. Cidades do amanhã: uma história intelectual do planejamento e do projeto urbanos no século XX. São Paulo: Perspectiva. 2016 (adaptado).

O modelo de planejamento urbano problematizado no texto é marcado pelo(a)
A
primazia da gestão popular
B
uso de práticas sustentáveis
C
construção do bem-estar social.
D
soberania do poder governamental.
ampliação da participação empresarial
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

A questão exige a interpretação de um texto crítico sobre a evolução do planejamento urbano no século XX. Para resolvermos, precisamos entender a mudança de paradigma descrita pelo autor e identificar quem são os principais beneficiados por essa nova lógica.

A Metáfora da "Cidade-Máquina"

O texto de Peter Hall destaca que o planejamento urbano sofreu uma transformação radical: ele deixou de ter a função de controlar o crescimento da cidade (o que geralmente envolve preocupações com o bem-estar social, a organização do espaço e a preservação ambiental) e passou a encorajá-lo a todo custo.

A chave para matar a questão está na metáfora utilizada: as cidades passaram a ser vistas como "máquinas de produzir riquezas", e o papel do planejamento urbano tornou-se o de "azeitar a máquina".

Quando o poder público (o planejador) assume a função de "azeitar" a engrenagem do crescimento econômico, ele passa a atuar como um facilitador para os agentes que operam essa máquina de gerar lucros. Na prática, isso significa flexibilizar leis de zoneamento, aprovar grandes projetos imobiliários e construir infraestruturas que atendam aos interesses do mercado.

Analisando as Alternativas

Com base nessa lógica de subordinação do espaço urbano aos interesses do capital (um fenômeno muitas vezes chamado de urbanismo neoliberal ou cidade-mercadoria), vamos analisar as opções:

  • A) primazia da gestão popular: Incorreta. Um modelo focado em transformar a cidade em uma máquina de lucro é tecnocrático e voltado para o mercado, o que afasta a população das tomadas de decisão.
  • B) uso de práticas sustentáveis: Incorreta. O encorajamento do crescimento urbano a qualquer custo frequentemente entra em choque com a preservação ambiental e a sustentabilidade.
  • C) construção do bem-estar social: Incorreta. O texto critica justamente o abandono do bem-estar social em prol da "produção de riquezas". O lucro passa a ser o objetivo principal, e não a qualidade de vida dos cidadãos.
  • D) soberania do poder governamental: Incorreta. Esta é uma armadilha comum. O texto mostra que o governo perde sua soberania ao se tornar um mero "lubrificador" (quem azeita a máquina) para os interesses de outro grupo, o setor privado.
  • E) ampliação da participação empresarial: Correta. Se a cidade é uma máquina de gerar riquezas e o planejamento serve para facilitar esse processo, os grandes protagonistas e beneficiários desse modelo são os agentes econômicos — construtoras, setor imobiliário, comércio e grandes corporações. Portanto, há uma ampliação direta da influência e da participação empresarial nas decisões sobre os rumos da cidade.

Dessa forma, o modelo problematizado no texto marca a transição para um planejamento urbano onde o setor empresarial dita as regras do jogo.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.