O polvo mimético apresenta padrões cromáticos e comportamentos muito curiosos. Frequentemente, muda a orientação de seus tentáculos, assemelhando-se a alguns animais. As imagens 1, 3, e 5 apresentam polvos mimetizando, respectivamente, um peixe-linguado (2), um peixe-leão (4) e uma serpente-marinha (6).
Questão 93 do ENEM 2021 — Ciências da Natureza
Resolução comentada
A questão aborda um dos conceitos mais fascinantes da biologia evolutiva: o mimetismo. O polvo mimético consegue alterar sua forma, cor e comportamento para se assemelhar a animais perigosos ou venenosos, como o peixe-leão e a serpente-marinha, ou a animais que se camuflam bem, como o linguado.
Para entender como essa capacidade se estabeleceu ao longo do tempo, precisamos recorrer aos princípios da Seleção Natural, propostos por Charles Darwin e aprimorados pelo Neodarwinismo.
O Mecanismo Evolutivo
Na natureza, as populações apresentam variabilidade genética. No passado, ancestrais desse polvo possuíam diferentes graus de flexibilidade e controle sobre a coloração da pele. O ambiente marinho é repleto de predadores, o que atua como uma forte pressão seletiva.
Quando um polvo, por acaso de sua genética, conseguia contorcer seus tentáculos de modo a parecer uma serpente-marinha venenosa, os predadores se assustavam e evitavam o ataque. Esse polvo sobrevivia. Por outro lado, os polvos que não possuíam essa habilidade eram predados com mais facilidade.
Como o polvo "imitador" sobreviveu, ele teve a chance de se reproduzir e passar os genes responsáveis por essa capacidade aos seus descendentes. Ao longo de milhares de gerações, essa característica vantajosa se fixou na espécie. Portanto, a evolução não ocorre por vontade do animal, mas sim porque a característica garante a sobrevivência às pressões seletivas.
Analisando as Alternativas Incorretas
Para consolidar o raciocínio, é importante entender por que as outras opções não fazem sentido do ponto de vista evolutivo:
- Alternativa A (Ancestral comum): O polvo é um molusco (invertebrado), enquanto peixes e serpentes são vertebrados. O ancestral comum entre eles viveu há mais de milhões de anos e não possuía essas características. A semelhança é apenas uma imitação superficial.
- Alternativa B (Mutações similares): As mutações genéticas são processos aleatórios. É estatisticamente impossível que o polvo tenha sofrido exatamente as mesmas mutações que formaram as escamas de uma serpente ou os espinhos de um peixe-leão.
- Alternativa C (Observação dos nichos): A ideia de que o polvo "observou e aprendeu" a mudar seu corpo remete ao Lamarckismo (lei do uso e desuso). A evolução biológica de uma espécie não ocorre por aprendizado consciente ou vontade própria, mas por seleção de genes.
- Alternativa D (Convergência adaptativa): Esta é a principal "pegadinha" da questão. A convergência adaptativa ocorre quando espécies diferentes desenvolvem estruturas morfológicas permanentes semelhantes por viverem no mesmo ambiente (exemplo clássico: a forma hidrodinâmica do tubarão e do golfinho). O polvo não desenvolveu a anatomia fixa de uma serpente; ele apenas exibe um comportamento temporário de imitação.
Dessa forma, a capacidade do polvo mimético se estabeleceu puramente porque os indivíduos que apresentavam esse comportamento conseguiam enganar predadores, sobrevivendo e deixando mais descendentes, o que nos leva à alternativa correta.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.