Questão 30 do ENEM 2010Ciências Humanas

ENEM 2010Ciências Humanas1ª aplicação

O príncipe, portanto, não deve se incomodar com a reputação de cruel, se seu propósito é manter o povo unido e leal. De fato, com uns poucos exemplos duros poderá ser mais clemente do que outros que, por muita piedade, permitem os distúrbios que levem ao assassínio e ao roubo.

MAQUIAVEL, N. O Príncipe, São Paulo: Martin Claret, 2009.

No século XVI, Maquiavel escreveu O Príncipe, reflexão sobre a Monarquia e a função do governante. A manutenção da ordem social, segundo esse autor, baseava-se na
A
inércia do julgamento de crimes polêmicos.
B
bondade em relação ao comportamento dos mercenários.
C
compaixão quanto à condenação de transgressões religiosas.
D
neutralidade diante da condenação dos servos.
conveniência entre o poder tirânico e a moral do príncipe.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o fragmento da obra O Príncipe e conectá-lo ao pensamento político de Nicolau Maquiavel, um dos autores mais importantes do Renascimento e da formação dos Estados Modernos no século XVI\text{XVI}.

O texto nos mostra uma ideia central da filosofia maquiavélica: a separação entre a moral cristã tradicional (focada na bondade e na piedade) e a moral política (focada na eficiência e na manutenção do poder). O autor argumenta que um governante não deve ter medo de ser visto como cruel se essa atitude for necessária para manter o povo unido e leal. Em outras palavras, a piedade excessiva pode ser perigosa se demonstrar fraqueza e permitir que a desordem, os assassinatos e os roubos tomem conta da sociedade.

Para Maquiavel, a principal função do governante é a manutenção do Estado e da ordem social. Para atingir esse objetivo, o príncipe deve agir com pragmatismo. Isso significa que a moral do príncipe não é a mesma do cidadão comum. Se for conveniente e estritamente necessário para a estabilidade do Estado, o governante pode e deve usar a força, a astúcia ou até mesmo atitudes consideradas tirânicas. Essa é a base do conceito de razão de Estado, frequentemente resumido pela máxima popular de que "os fins justificam os meios".

Analisando as alternativas à luz desse raciocínio:

  • A alternativa A está incorreta porque Maquiavel não defende a inércia (falta de ação), mas sim a ação enérgica e exemplar ("exemplos duros").
  • A alternativa B é falsa, pois o autor era um crítico ferrenho do uso de tropas mercenárias, defendendo que o príncipe deveria ter seus próprios exércitos.
  • As alternativas C e D falam em compaixão e neutralidade, atitudes que o texto expressamente condena se acabarem levando à desordem social.
  • A alternativa E é a correta. A manutenção da ordem baseia-se na conveniência entre o uso do poder (mesmo que tirânico, duro ou cruel) e a moral própria do príncipe (uma moral política, focada nos resultados e na estabilidade do Estado).

Portanto, a ação do governante deve ser guiada pela necessidade política do momento, adequando sua moral para garantir a ordem.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2010 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.