Questão 133 do ENEM 2022Ciências da Natureza

ENEM 2022Ciências da Natureza1ª aplicação

O protozoário Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas, pode ser a nova arma da medicina contra o câncer. Pesquisadores brasileiros conseguiram criar uma vacina contra a doença usando uma variação do protozoário incapaz de desencadear a patologia (não patogênico). Para isso, realizaram uma modificação genética criando um T. cruzi capaz de produzir também moléculas fabricadas pelas células tumorais. Quando o organismo inicia o combate ao protozoário, entra em contato também com a molécula tumoral, que passa a ser
vista também pelo sistema imune como um indicador de células do protozoário. Depois de induzidas as defesas, estas passam a destruir todas as células com a molécula tumoral, como se lutassem apenas contra o protozoário.

Disponível em: www.estadao.com.br. Acesso em: 1 mar. 2012 (adaptado).

Qual o mecanismo utilizado no experimento para enganar as células de defesa, fazendo com que ataquem o tumor?
A
Autoimunidade.
B
Hipersensibilidade.
C
Ativação da resposta inata.
Apresentação de antígeno específico.
Resposta correta
E
Desencadeamento de processo anti-inflamatório.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

O enunciado descreve uma estratégia inovadora de imunoterapia contra o câncer. Pesquisadores modificaram geneticamente o protozoário Trypanosoma cruzi (em uma versão que não causa a doença de Chagas) para que ele produza moléculas idênticas às encontradas em células tumorais. O objetivo da questão é identificar o nome do mecanismo imunológico que permite ao corpo "aprender" a atacar o tumor a partir desse contato com o protozoário.

Para entender o que acontece, precisamos relembrar como funciona a nossa resposta imune adaptativa. Quando um microrganismo invade o nosso corpo, células de defesa especializadas (como os macrófagos e as células dendríticas) "engolem" esse invasor por meio da fagocitose. Dentro da célula de defesa, o invasor é digerido e fragmentado em pequenos pedaços de proteínas.

Esses pequenos pedaços são chamados de antígenos. A célula de defesa, então, pega esses antígenos e os exibe em sua própria superfície, como se estivesse segurando um cartaz de "procurado". Esse processo é conhecido como apresentação de antígenos. É através dessa apresentação que os linfócitos T (as células de ataque do sistema imune) conseguem "enxergar" quem é o inimigo, ativando-se para caçar e destruir qualquer célula do corpo que possua aquela mesma molécula.

No experimento descrito, como o protozoário foi modificado para produzir moléculas do tumor, as células de defesa acabam processando e apresentando tanto os antígenos do protozoário quanto os antígenos tumorais. Os linfócitos T são ativados contra ambos e, ao circularem pelo corpo, encontram as células do câncer exibindo a molécula tumoral, passando a atacá-las de forma específica.

Vamos analisar por que as outras alternativas estão incorretas:

  • Autoimunidade: É uma condição patológica em que o sistema imune ataca células saudáveis do próprio corpo por engano. No caso da questão, o ataque é terapêutico e direcionado a células doentes (tumor), não configurando uma falha autoimune.
  • Hipersensibilidade: Refere-se a reações exageradas do sistema imune, como as alergias, o que não se aplica ao combate direcionado a tumores.
  • Ativação da resposta inata: A resposta inata (como a fagocitose inicial) é inespecífica. O que garante que o sistema imune ataque especificamente as células com a molécula tumoral é a resposta adaptativa, que depende fundamentalmente da apresentação do antígeno.
  • Desencadeamento de processo anti-inflamatório: A destruição de células tumorais e o combate a infecções são processos pró-inflamatórios. Um processo anti-inflamatório iria suprimir a resposta imune, protegendo o tumor.

Portanto, o mecanismo central que permite "enganar" o sistema imune e direcioná-lo contra o tumor é a apresentação de antígeno específico.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2022 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.