Questão 123 do ENEM 2012Linguagens

ENEM 2012Linguagens2ª aplicação

O que a internet esconde de você

Para cada site que você pode visitar, existem pelo menos 400 outros que não consegue acessar. Eles existem, estão lá, mas são invisíveis. Estão presos num buraco negro digital maior do que a própria internet. A cada vez que você interage com um amigo nas redes sociais, vários outros são ignorados e têm as mensagens enterradas num enorme cemitério on-line. E, quando você faz uma pesquisa no Google, não recebe os resultados de fato — e sim uma versão maquiada, previamente modificada de acordo com critérios secretos. Sim, tudo isso é verdade — e não é nenhuma grande conspiração. Acontece todos os dias sem que você perceba. Pegue seu chapéu de Indiana Jones e vamos explorar a web perdida.

GRAVATÁ, A. Superinteressante, nov. 2011 (fragmento).

Os gêneros do discurso jornalístico, geralmente a manchete, a notícia e a reportagem, exigem um repórter que não diz “eu”, nem mesmo que se refira ao leitor do texto explicitamente. No trecho lido, ao contrário, é recorrente o emprego de “você”, o qual
A
remete a um sujeito “eu” que se prende ao próprio dizer, fortalecendo a subjetividade.
B
explicita uma construção metalinguística que se volta para o próprio dizer.
deixa claro o leitor esperado para o texto, aquele que visita redes sociais e sites de busca no dia a dia.
Resposta correta
D
estabelece conexão entre o fatual e o opinativo, o que descaracteriza o texto como reportagem.
E
revela a intenção de tornar a leitura mais fácil, a partir de um texto em que se emprega vocabulário simples.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

A questão aborda as características dos gêneros jornalísticos e o uso de marcas de interlocução, especificamente o pronome "você", para construir o sentido do texto e dialogar com o leitor.

No jornalismo tradicional, como em notícias e manchetes, predomina a impessoalidade. O repórter geralmente se posiciona como um observador neutro, utilizando a 3ª pessoa e evitando dirigir-se diretamente ao leitor ou usar a 1ª pessoa ("eu"). No entanto, o trecho da revista Superinteressante rompe com essa impessoalidade ao utilizar repetidamente o pronome "você" e verbos conjugados para esse pronome (como "pode visitar", "consegue acessar", "interage", "faz").

Ao analisarmos o contexto em que esse "você" é inserido, notamos que ele está sempre associado a ações cotidianas no ambiente digital: visitar sites, interagir com amigos nas redes sociais e fazer pesquisas no Google.

Quando o autor escreve "A cada vez que você interage com um amigo nas redes sociais" ou "quando você faz uma pesquisa no Google", ele não está falando com um público qualquer. Ele está assumindo que a pessoa que lê o texto realiza essas ações no seu dia a dia. Essa escolha linguística tem uma função discursiva muito clara: ela constrói e revela o leitor implícito (ou leitor esperado) da reportagem. O texto "puxa" o leitor para dentro da discussão, criando proximidade e identificação, e deixa evidente que o público-alvo é o usuário comum e ativo da internet.

Análise das Alternativas

  • A alternativa A está incorreta porque o foco do pronome "você" é o receptor (o leitor), e não o emissor ("eu").
  • A alternativa B está incorreta pois o texto não apresenta uma construção metalinguística (não está explicando a própria linguagem ou como se escreve uma reportagem).
  • A alternativa C é a correta. O uso do "você" associado às práticas digitais descritas deixa claro o perfil do leitor esperado: aquele que utiliza redes sociais e sites de busca cotidianamente.
  • A alternativa D está incorreta porque, embora o texto misture fatos e opiniões, não é o uso do "você" que descaracteriza o texto como reportagem (pelo contrário, é uma marca de estilo de reportagens mais interpretativas e próximas do leitor).
  • A alternativa E pode ser uma armadilha. Embora o uso do "você" possa tornar o texto mais acessível e dinâmico, a sua função principal e mais profunda nesse contexto não é apenas facilitar a leitura, mas sim construir a imagem do interlocutor e dialogar diretamente com o perfil específico de leitor que o autor tem em mente.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2012 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.