Questão 21 do ENEM 2010Ciências Humanas

ENEM 2010Ciências Humanas2ª aplicação

Ó sublime pergaminho
Libertação geral
A princesa chorou ao receber
A rosa de ouro papal
Uma chuva de flores cobriu o salão
E o negro jornalista
De joelhos beijou a sua mão
Uma voz na varanda do paço ecoou:
“Meu Deus, meu Deus
Está extinta a escravidão”

MELODIA, Z.; RUSSO, N.; MADRUGADA, C. Sublime Pergaminho. Disponível em http://www.letras.terra.com.br. Acesso em: 28 abr. 2010.

O samba-enredo de 1968 reflete e reforça uma concepção acerca do fim da escravidão ainda viva em nossa memória, mas que não encontra respaldo nos estudos históricos mais recentes.

Nessa concepção ultrapassada, a abolição é apresentada como
A
conquista dos trabalhadores urbanos livres, que demandavam a redução da jornada de trabalho.
concessão do governo, que ofereceu benefícios aos negros, sem consideração pelas lutas de escravos e abolicionistas.
Resposta correta
C
ruptura na estrutura socioeconômica do país, sendo responsável pela otimização da inclusão social dos libertos.
D
fruto de um pacto social, uma vez que agradaria os agentes históricos envolvidos na questão: fazendeiros, governo e escravos.
E
forma de inclusão social, uma vez que a abolição possibilitaria a concretização de direitos civis e sociais para os negros.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a letra do samba-enredo e identificar qual é a visão sobre a abolição da escravidão que ela transmite.

O trecho da música destaca a figura da Princesa Isabel ("A princesa chorou ao receber / A rosa de ouro papal") e a atitude de gratidão e submissão dos negros libertos ("E o negro jornalista / De joelhos beijou a sua mão"). Essa narrativa constrói a imagem de que a Lei Áurea foi um ato de extrema bondade, um verdadeiro "presente" da monarquia para a população negra.

Essa é a chamada visão tradicional ou oficial da abolição, que predominou durante muito tempo. Nela, o fim da escravidão é visto como uma concessão do governo, um ato de benevolência das elites políticas, personificadas na Princesa Isabel. O grande problema dessa concepção — e o motivo pelo qual a historiografia moderna a considera ultrapassada — é que ela apaga completamente o protagonismo dos próprios escravizados e do movimento abolicionista. A abolição não foi um presente, mas sim o resultado de décadas de lutas, fugas em massa, formação de quilombos, rebeliões e intensa pressão política e social.

Analisando as alternativas à luz dessa interpretação:

  • A) Incorreta. A abolição não é apresentada como conquista de trabalhadores urbanos livres.
  • B) Correta. A concepção ultrapassada presente no samba-enredo mostra a abolição exatamente como uma concessão do governo (um ato de bondade da princesa), ignorando as intensas lutas dos escravizados e dos abolicionistas.
  • C) Incorreta. A abolição não gerou uma ruptura estrutural que otimizou a inclusão social; pelo contrário, os libertos foram marginalizados.
  • D) Incorreta. Não houve um pacto que agradou a todos. Os fazendeiros escravocratas, por exemplo, sentiram-se traídos pela monarquia e muitos passaram a apoiar a República.
  • E) Incorreta. A abolição não garantiu a inclusão social nem a concretização de direitos civis e sociais para a população negra no período pós-abolição.

Portanto, a letra da música reflete a ideia de que a liberdade foi dada de cima para baixo, confirmando a alternativa B.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2010 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.