Questão 23 do ENEM 2018Linguagens

ENEM 2018Linguagens1ª aplicação

O trabalho não era penoso: colar rótulos, meter vidros em caixas, etiquetá-las, selá-las, envolvê-las em papel celofane, branco, verde, azul, conforme o produto, separá-las em dúzias… Era fastidioso. Para passar mais rapidamente as oito horas havia o remédio: conversar. Era proibido, mas quem ia atrás de proibições? O patrão vinha? Vinha o encarregado do serviço? Calavam o bico, aplicavam-se ao trabalho. Mal viravam as costas, voltavam a taramelar. As mãos não paravam, as línguas não paravam. Nessas conversas intermináveis, de linguagem solta e assuntos crus, Leniza se completou. Isabela, Afonsina, Idália, Jurete, Deolinda – foram mestras. O mundo acabou de se desvendar. Leniza perdeu o tom ingênuo que ainda podia ter. Ganhou um jogar de corpo que convida, um quebrar de olhos que promete tudo, à toa, gratuitamente. Modificou-se o timbre de sua voz. Ficou mais quente. A própria inteligência se transformou.
Tornou-se mais aguda, mais trepidante

REBELO, M. A estrela sobe. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.

O romance, de 1939, traz à cena tipos e situações que espelham o Rio de Janeiro daquela década. No fragmento, o narrador delineia esse contexto centrado no
A
julgamento da mulher fora do espaço doméstico.
B
relato sobre as condições de trabalho no Estado Novo.
C
destaque a grupos populares na condição de protagonistas
D
processo de inclusão do palavrão nos hábitos de linguagem.
vínculo entre as transformações urbanas e os papéis femininos.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

A resolução dessa questão exige uma leitura atenta do fragmento para compreender a relação entre o ambiente descrito e as mudanças sofridas pela personagem principal.

O texto de Marques Rebelo descreve o cotidiano de um grupo de mulheres trabalhando em uma espécie de linha de produção (colando rótulos, empacotando vidros). Esse cenário ilustra o processo de industrialização e urbanização pelo qual o Rio de Janeiro passava na década de 19301930. Um dos reflexos diretos dessa modernização foi a inserção da mulher no mercado de trabalho assalariado, o que a retirou do espaço exclusivamente doméstico e a colocou em contato com uma nova realidade social.

Ao longo do fragmento, o narrador foca nas consequências desse novo ambiente para a protagonista, Leniza. Para suportar o trabalho "fastidioso", as operárias conversavam sobre "assuntos crus" com "linguagem solta". É por meio desse convívio no espaço urbano e fabril que Leniza passa por uma profunda transformação pessoal: ela perde a ingenuidade, altera sua expressão corporal ("ganhou um jogar de corpo"), muda o timbre de voz e desenvolve uma inteligência "mais aguda, mais trepidante".

Analisando as alternativas a partir dessa interpretação:

  • A alternativa A está incorreta porque o narrador não adota uma postura de julgamento moral ou condenação da mulher por estar fora do espaço doméstico; ele apenas descreve a transformação dela.
  • A alternativa B é incorreta pois, embora o texto descreva uma rotina de trabalho, o foco não é fazer um relato político ou uma denúncia sobre as leis trabalhistas do Estado Novo, mas sim mostrar o impacto social desse trabalho na personagem.
  • A alternativa C traz uma afirmação muito genérica. Embora as personagens sejam de classes populares, o núcleo do fragmento é a mudança de comportamento de Leniza, e não apenas o destaque ao grupo.
  • A alternativa D foca em um detalhe menor. A "linguagem solta" é apenas um dos elementos do ambiente, não o tema central do texto.
  • A alternativa E é a correta. O fragmento ilustra perfeitamente o vínculo entre as transformações urbanas (o trabalho em fábricas, a modernização da cidade) e os papéis femininos (a mulher deixando a ingenuidade do lar, ganhando malícia, nova postura e independência no convívio social).

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Fonte: prova oficial do ENEM 2018 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.