Questão 54 do ENEM 2024Ciências Humanas

ENEM 2024Ciências Humanas1ª aplicação

Os grupos dominantes são beneficiados em termos de credibilidade e podem, com isso, controlar falas de membros de outros grupos, descredibilizando seus testemunhos com base em concepções compartilhadas de preconceito de identidade (gênero e raça). Algumas formas de preconceito tornam as declarações das pessoas menos importantes devido ao seu pertencimento a determinado grupo social. Assim, um falante recebe menos credibilidade devido ao preconceito do ouvinte.

KUHNEN, T. Resenha de The Power and Ethics of Knowing,
de Miranda Fricker. Revista Princípios, n. 33, 2013.

Com base na reflexão suscitada no texto, o preconceito de identidade é responsável por um tipo de injustiça
A
estética, que normatiza os padrões corporais.
B
sensorial, que privilegia as habilidades visuais.
C
afetiva, que impede as expressões emocionais.
epistêmica, que prejudica as trocas informacionais
Resposta correta
E
econômica, que perpetua as desigualdades materiais.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

O texto da questão descreve uma situação em que a palavra de uma pessoa é desvalorizada não porque o que ela diz é falso, mas devido à sua identidade (como gênero ou raça). O comando da questão pede para identificarmos o tipo de injustiça que esse preconceito de identidade gera, com base na reflexão apresentada.

Para resolvermos isso, precisamos focar nas palavras-chave do texto: "descredibilizando seus testemunhos", "falante", "ouvinte" e "credibilidade". Todas essas palavras estão ligadas ao campo da comunicação, da troca de informações e da construção do conhecimento.

Na filosofia, a palavra grega para "conhecimento" ou "saber" é episteme. Quando um grupo dominante retira a credibilidade de alguém apenas por pertencer a um determinado grupo social, ele está cometendo um bloqueio da verdade que aquela pessoa carrega. A filósofa Miranda Fricker cunhou exatamente o termo injustiça epistêmica para descrever esse fenômeno: uma injustiça que ocorre no campo do conhecimento, onde a capacidade de alguém atuar como sujeito de saber é negada.

Vamos analisar as alternativas para confirmar nosso raciocínio:

  • A) estética, que normatiza os padrões corporais. Incorreta. A injustiça estética estaria ligada ao julgamento da aparência física ou do corpo de alguém, o que não é o foco do texto.
  • B) sensorial, que privilegia as habilidades visuais. Incorreta. O texto não aborda os sentidos físicos (como visão ou audição), mas sim o conteúdo intelectual e a validade do testemunho.
  • C) afetiva, que impede as expressões emocionais. Incorreta. Embora o preconceito cause dor emocional, o texto foca especificamente na relação de credibilidade entre falante e ouvinte, ou seja, na validade do que é dito, e não na expressão de sentimentos.
  • D) epistêmica, que prejudica as trocas informacionais. Correta. Como vimos, epistêmica refere-se ao conhecimento. Ao descredibilizar o testemunho de alguém por preconceito, a troca de informações e saberes é diretamente prejudicada.
  • E) econômica, que perpetua as desigualdades materiais. Incorreta. O preconceito pode gerar desigualdade financeira, mas o trecho em análise foca na desigualdade de voz e escuta, não na distribuição de renda ou bens materiais.

Portanto, a alternativa correta é a que identifica o bloqueio na troca de saberes e informações.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2024 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.