Questão 22 do ENEM 2013Ciências Humanas

ENEM 2013Ciências Humanas1ª aplicação

Para que não haja abuso, é preciso organizar as coisas de maneira que o poder seja contido pelo poder. Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos. Assim, criam-se os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, atuando de forma independente para a efetivação da liberdade, sendo que esta não existe se uma mesma pessoa ou grupo exercer os referidos poderes concomitantemente.

MONTESQUIEU, B. Do espírito das leis. São Paulo Abril Cultural, 1979 (adaptado).

A divisão e a independência entre os poderes são condições necessárias para que possa haver liberdade em um Estado. Isso pode ocorrer apenas sob um modelo político em que haja
A
exercício de tutela sobre atividades jurídicas e políticas.
B
consagração do poder político pela autoridade religiosa.
C
concentração do poder nas mãos de elites técnico-cientifícas.
estabelecimento de limites aos atores públicos e às instituições do governo.
Resposta correta
E
reunião das funções de legislar, julgar e executar nas mãos de um governante eleito.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

A questão aborda um dos conceitos mais fundamentais da teoria política moderna: a separação dos poderes, formulada pelo filósofo iluminista Montesquieu em sua obra O Espírito das Leis, publicada no século XVIII.

A teoria dos três poderes

O texto-base deixa claro o raciocínio de Montesquieu: para que não haja tirania ou abuso, é necessário que "o poder seja contido pelo poder". Isso significa que a autoridade do Estado não pode estar concentrada nas mãos de uma única pessoa ou de um único grupo. Se o mesmo indivíduo puder criar as leis (Poder Legislativo), executá-las (Poder Executivo) e julgar os conflitos (Poder Judiciário), a liberdade dos cidadãos estará arruinada, pois o governante poderá agir de forma arbitrária e absoluta.

Para garantir a liberdade política, Montesquieu propõe um sistema de freios e contrapesos (do inglês, checks and balances). Nesse modelo, cada um dos três poderes atua de forma independente, mas possui mecanismos para fiscalizar e limitar os outros dois.

Analisando as alternativas

Com base nesse entendimento, vamos avaliar o que é necessário para que esse modelo funcione:

  • A) Incorreta. O exercício de tutela (controle ou subordinação) sobre as atividades jurídicas e políticas destruiria a independência dos poderes.
  • B) Incorreta. A consagração do poder pela autoridade religiosa remete ao absolutismo de direito divino, modelo duramente criticado pelos iluministas como Montesquieu.
  • C) Incorreta. A concentração de poder, mesmo nas mãos de uma elite técnico-científica (tecnocracia), é exatamente o oposto do que Montesquieu defende. Qualquer concentração leva ao abuso.
  • D) Correta. Para que o poder contenha o poder, é necessário o estabelecimento de limites aos atores públicos e às instituições do governo. Cada instituição deve ter atribuições bem definidas e restritas, impedindo que invadam a competência das outras.
  • E) Incorreta. A reunião das funções de legislar, julgar e executar nas mãos de um único governante, mesmo que eleito, configura tirania, anulando a separação dos poderes.

Portanto, a divisão e a independência dos poderes só se sustentam em um modelo que impõe limites claros à atuação do Estado e de seus representantes. O gabarito é a letra D.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2013 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.