Questão 33 do ENEM 2020Linguagens

ENEM 2020LinguagensDigital

Pessoal intransferível

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.

Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

TORQUATO NETO. Melhores poemas de Torquato Neto. São Paulo: Global, 2018.

Expoente da poesia produzida no Brasil na década de 1970 e autor de composições representativas da Tropicália, Torquato Neto mobiliza, nesse texto,
A
gírias e expressões coloquiais para criticar a linguagem adornada da tradição literária então vigente.
B
ntenções satíricas e humorísticas para delinear uma concepção de poesia voltada para a felicidade dos leitores.
C
frases de efeito e interpelações ao leitor para ironizar as tentativas de adequação do poema ao gosto do público.
D
recursos da escrita em prosa e noções do senso comum para enfatizar as dificuldades inerentes ao trabalho do poeta.
referências intertextuais e anedóticas para defender a importância de uma atitude destemida ante os riscos da criação poética.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o texto de Torquato Neto como um verdadeiro manifesto sobre o que significa ser poeta. O autor, figura central da Tropicália e da poesia marginal dos anos 19701970, constrói uma reflexão profunda sobre a criação literária.

A Tese Central do Texto

Logo no início, Torquato Neto deixa claro que "um poeta não se faz com versos". Para ele, a poesia não é uma simples habilidade técnica de escrever palavras bonitas, mas sim uma atitude existencial. Ele define a poesia como "o risco", a capacidade de "estar sempre a perigo sem medo" e de "destruir a linguagem e explodir com ela". Ou seja, a verdadeira criação poética exige coragem, subversão e uma postura destemida diante da vida e da arte.

Os Recursos Mobilizados

Para defender essa ideia, o autor utiliza duas estratégias principais que aparecem na alternativa correta:

  1. Referências intertextuais: Torquato dialoga de forma irônica com a tradição literária e com clichês poéticos. Quando ele escreve "Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc.", ele está fazendo alusão a versos e ideias já consagradas para criticar a poesia fácil, conformista e sem profundidade (os "versinhos sorridentes").
  2. Recursos anedóticos: No final do texto, ele introduz uma pequena narrativa, uma espécie de parábola ou anedota: "leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi". Essa historinha serve para ilustrar de forma impactante a sua tese. O homem, por ter consciência da morte e do perigo, é quem tem a capacidade de "berrar" — uma metáfora para a expressão autêntica, desesperada e corajosa que o verdadeiro poeta deve ter.

Analisando as Alternativas

Com base nessa interpretação, podemos descartar as alternativas incorretas:

  • A alternativa A foca apenas nas gírias e na crítica à linguagem adornada, mas o texto vai muito além da forma, criticando a própria postura existencial do poeta.
  • A alternativa B erra ao falar em "felicidade dos leitores", já que o texto propõe uma poesia de risco e enfrentamento.
  • A alternativa C reduz o texto a uma ironia sobre a "adequação ao gosto do público", ignorando a defesa da coragem e do risco.
  • A alternativa D afirma que o autor usa "noções do senso comum", quando, na verdade, ele as combate.

Portanto, a alternativa E é a única que descreve com precisão as ferramentas utilizadas pelo autor (intertextualidade e anedota) e a sua finalidade principal: defender que a criação poética exige uma atitude destemida diante dos riscos.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.