Questão 9 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens1ª aplicação

PINHÃO Sai ao mesmo tempo que BENONA entra.

BENONA: Eurico, Eudoro Vicente está lá fora e quer falar com você.

EURICÃO: Benona, minha irmã, eu sei que ele está lá fora, mas não quero falar com ele.

BENONA: Mas Eurico, nós lhe devemos certas atenções.

EURICÃO: Você, que foi noiva dele. Eu, não!

BENONA: Isso são coisas passadas.

EURICÃO: Passadas para você, mas o prejuízo foi meu. Esperava que Eudoro, com todo aquele dinheiro, se tornasse meu cunhado. Era uma boca a menos e um patrimônio a mais. E o peste me traiu. Agora, parece que ouviu dizer que eu tenho um tesouro. E vem louco atrás dele, sedento, atacado de verdadeira hidrofobia. Vive farejando ouro, como um cachorro da molest’a, como um urubu, atrás do sangue dos outros. Mas ele está enganado. Santo Antônio há de proteger minha pobreza e minha devoção.

SUASSUNA, A. O santo e a porca, Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 (fragmento)

Nesse texto teatral, o emprego das expressões “o peste” e “cachorro da molest’a” contribui para
A
marcar a classe social das personagens.
caracterizar usos linguísticos de uma região.
Resposta correta
C
enfatizar a relação familiar entre as personagens.
D
sinalizar a influência do gênero nas escolhas vocabulares.
E
demonstrar o tom autoritário da fala de uma das personagens.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o fragmento da peça teatral O santo e a porca, escrita por Ariano Suassuna, e entender o papel das expressões destacadas no enunciado: “o peste” e “cachorro da molest’a”.

Ariano Suassuna é um dos maiores representantes da literatura regionalista brasileira, conhecido por valorizar a cultura, as tradições e, principalmente, a fala do povo nordestino. Quando o personagem Euricão utiliza expressões como “o peste” e “cachorro da molest’a” para se referir a Eudoro Vicente, ele está empregando xingamentos e formas de indignação que são marcas registradas do falar coloquial da região Nordeste do Brasil.

Na linguística, chamamos isso de variação linguística regional (ou diatópica). Trata-se das diferenças de vocabulário, pronúncia e sintaxe que ocorrem de acordo com a região geográfica dos falantes. O uso dessas expressões na peça tem o objetivo literário e estilístico de dar verossimilhança aos personagens, situando-os cultural e geograficamente.

Vamos analisar as alternativas para confirmar nossa conclusão:

  • A alternativa A está incorreta. As expressões citadas não servem para demarcar a classe social (variação diastrática) dos personagens. Pessoas de diferentes classes sociais em uma mesma região podem compartilhar esse vocabulário.
  • A alternativa B está correta. Como vimos, “o peste” e “cachorro da molest’a” são marcas claras do falar nordestino, caracterizando os usos linguísticos de uma região específica.
  • A alternativa C está incorreta. As expressões são direcionadas a Eudoro Vicente em tom de ofensa e repulsa, não tendo qualquer relação com a ênfase em laços familiares entre Euricão e Benona.
  • A alternativa D está incorreta. O gênero teatral em si não obriga o uso desse tipo de vocabulário. A escolha dessas palavras se deve à intenção do autor de retratar o regionalismo, e não a uma regra do gênero dramático.
  • A alternativa E está incorreta. A fala de Euricão demonstra raiva, indignação e ressentimento em relação a Eudoro, mas não um tom autoritário (de quem dá ordens ou exerce poder sobre o outro).

Portanto, o emprego dessas expressões contribui diretamente para a caracterização regional da linguagem da obra.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.