Questão 76 do ENEM 2021Ciências Humanas

ENEM 2021Ciências HumanasPPL

Polemizando contra a tradicional tese aristotélica, que via na sociedade o resultado de um instinto primordial, Hobbes sustenta que no gênero humano, diferentemente do animal, não existe sociabilidade instintiva. Entre os indivíduos não existe um amor natural, mas somente uma explosiva mistura de temor e necessidade recíprocos que, se não fosse disciplinada pelo Estado, originaria uma incontrolável sucessão de violências e excessos.

NICOLAU, U. Antologia ilustrada de filosofia: das origens à Idade Moderna. São Paulo: Globo, 2005 (adaptado).

Referente à constituição da sociedade civil, considere, respectivamente, o correto posicionamento de Aristóteles e Hobbes:
A
Instrumento artificial para a realização da justiça e forma de legitimação do exercício da coerção e da violência.
Realização das disposições naturais do homem e artifício necessário para frear a natureza humana.
Resposta correta
C
Resultado involuntário da ação de cada indivíduo e anulação dos impulsos originários presentes na natureza humana.
D
Objetivação dos desejos da maioria e representação construída para possibilitar as relações interpessoais.
E
Realização da razão e expressão da vontade dos governados.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos compreender as visões de Aristóteles e Thomas Hobbes sobre a origem da sociedade civil, ou seja, como e por que os seres humanos passam a viver em comunidade sob regras e leis.

A visão de Aristóteles

Aristóteles defendia que o ser humano é, por natureza, um animal político (zoon politikon). Isso significa que a sociabilidade é um instinto primordial e inerente à nossa espécie. Para ele, a sociedade (a pólis) não é uma invenção artificial, mas sim o ambiente natural onde o ser humano pode desenvolver plenamente suas potencialidades e alcançar a felicidade (a eudaimonia). Portanto, a constituição da sociedade civil é a realização das disposições naturais do homem.

A visão de Hobbes

Thomas Hobbes, por outro lado, é um filósofo contratualista que discorda radicalmente dessa visão naturalista. Para Hobbes, no "estado de natureza" (antes da formação da sociedade), os seres humanos são movidos por desejos egoístas e pelo medo da morte, o que gera um estado de guerra de todos contra todos ("o homem é o lobo do homem"). A sociabilidade não é instintiva. Para evitar a destruição mútua, os indivíduos decidem, de forma racional e artificial, firmar um pacto (o contrato social) e criar o Estado (o Leviatã). O Estado surge, então, como um artifício necessário para frear a natureza humana e garantir a paz e a sobrevivência.

Analisando as alternativas

Buscamos a alternativa que traga, respectivamente, a visão de Aristóteles e a de Hobbes:

  • A) Incorreta. Aristóteles não vê a sociedade como um "instrumento artificial".
  • B) Correta. Para Aristóteles, a sociedade é a "realização das disposições naturais do homem"; para Hobbes, é um "artifício necessário para frear a natureza humana".
  • C) Incorreta. A sociedade para Aristóteles não é um resultado involuntário, mas o fim natural do homem. Para Hobbes, o Estado não anula os impulsos, mas os controla por meio da coerção.
  • D) Incorreta. A visão de Aristóteles não se resume à "objetivação dos desejos da maioria".
  • E) Incorreta. Hobbes não vê o Estado como mera "expressão da vontade dos governados", mas como um poder soberano absoluto ao qual os governados se submetem em troca de segurança.

Portanto, a alternativa que descreve corretamente o posicionamento de ambos os filósofos é a B.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.