Questão 10 do ENEM 2020Linguagens

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Ponto morto
A minha primeira mulher
se divorciou do terceiro marido.
A minha segunda mulher
acabou casando com a melhor amiga dela.
A terceira (seria a quarta?)
detesta os filhos do meu primeiro casamento.
Estes, por sua vez, não suportam os filhos
do terceiro casamento da minha primeira mulher.
Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.
Estava sozinho
quando um dos meus filhos acenou para mim no
meio do engarrafamento.
A memória demorou para engatar seu nome.
Por segundos, a vida parou em ponto morto.

MASSI, A. A vida errada. Rio de Janeiro: 7Letras, 2001.

No poema, a singularidade da situação representada é efeito da correlação entre
A
a dissipação das identidades e a circulação de sujeitos anônimos.
as relações familiares e a dinâmica da vida no espaço urbano.
Resposta correta
C
a constatação da incomunicabilidade e a solidão humana.
D
o trânsito caótico e o impedimento à expressão afetiva.
E
os lugares de parentesco e o estranhamento social
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a estrutura do poema e identificar os dois grandes temas que o autor entrelaça para construir o sentido do texto.

O poema pode ser dividido em dois momentos principais:

No primeiro momento, o eu lírico descreve uma teia complexa e confusa de relações familiares. Ele fala sobre divórcios, novos casamentos, filhos de diferentes uniões e as tensões entre eles (como os filhos do primeiro casamento que não suportam os filhos do terceiro casamento da primeira mulher). Essa descrição retrata a fragmentação e a reconfiguração dos laços familiares na sociedade contemporânea, gerando um distanciamento afetivo.

No segundo momento, o cenário muda para o espaço urbano. O eu lírico relata estar sozinho no meio de um engarrafamento quando um de seus filhos acena para ele. A impessoalidade e a paralisia do trânsito caótico servem como pano de fundo para o clímax do poema: a dificuldade do pai em reconhecer o próprio filho de imediato.

A genialidade do poema está justamente na correlação entre esses dois universos. O autor usa o engarrafamento (dinâmica da vida urbana) como uma metáfora perfeita para o "engarrafamento" emocional e familiar do eu lírico. A expressão "ponto morto", que dá título ao poema, possui um sentido duplo: o sentido literal, referindo-se à marcha desengatada do carro parado no trânsito, e o sentido figurado, representando a paralisia existencial e afetiva do personagem diante da confusão de sua própria vida.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta, pois as identidades não estão dissipadas; elas são bem marcadas (primeira mulher, terceiro marido, filhos), o problema é a complexidade das relações entre elas.
  • B está correta, pois identifica com precisão os dois eixos do poema: a teia das relações familiares e a dinâmica da vida no espaço urbano (o engarrafamento), cuja união cria a sensação de paralisia e estranhamento.
  • C está incorreta, pois, embora haja solidão, o foco não é a incomunicabilidade geral, mas sim a confusão específica dos laços familiares.
  • D está incorreta, pois o trânsito não impede a expressão afetiva; ele é apenas o cenário e a metáfora para o distanciamento que já existia nas relações do eu lírico.
  • E está incorreta, pois "lugares de parentesco" e "estranhamento social" são termos vagos que não capturam a metáfora central do espaço urbano (o engarrafamento) utilizada no poema.

Portanto, a singularidade da situação é efeito direto da correlação entre as relações familiares e a dinâmica da vida no espaço urbano.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.