Questão 65 do ENEM 2025Ciências Humanas

ENEM 2025Ciências HumanasReaplicação

Por “brecha” não entendemos, de forma alguma, um elemento que pusesse em perigo, mudasse drasticamente ou diminuísse o sistema escravista. A analogia com uma brecha na muralha de uma fortaleza assediada seria algo totalmente equivocado. O que queremos descrever é uma brecha para o escravizado, como se diria hoje, “um espaço”, situado sem dúvida dentro do sistema, mas abrindo possibilidades inéditas para atividades autônomas dos cativos.

CARDOSO, C. F. S. Escravo ou camponês? O protocampesinato negro nas Américas. São Paulo: Brasiliense, 1987 (adaptado).

No Brasil colonial, a “brecha” abordada no texto representou uma flexibilização, ao possibilitar ao escravizado
A
conquistar direitos civis.
obter ganhos econômicos.
Resposta correta
C
garantir o acesso à educação.
D
expressar a liberdade religiosa.
E
constituir associações profissionais.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

A questão aborda um conceito clássico da historiografia sobre a escravidão no Brasil, desenvolvido pelo historiador Ciro Flamarion Cardoso: a chamada "brecha camponesa" (ou protocampesinato negro).

Ao lermos o texto-base, notamos que o autor descreve uma "brecha" que não ameaçava o sistema escravista como um todo, mas que permitia aos escravizados um espaço de "atividades autônomas". No contexto do Brasil colonial e imperial, essa brecha consistia na permissão dada por muitos senhores para que os escravizados cultivassem pequenas parcelas de terra (as roças) durante seus dias de folga (geralmente aos domingos ou dias santos).

O objetivo principal dos senhores ao permitir isso era baratear os custos de manutenção da escravaria, transferindo para os próprios cativos a responsabilidade de produzir parte de seus alimentos. No entanto, para os escravizados, essa prática abriu uma oportunidade valiosa: eles passaram a produzir não apenas para a própria subsistência, mas também para vender o excedente nas feiras e mercados locais.

Com a venda desses produtos, os escravizados conseguiam acumular pequenos pecúlios (economias). Esse dinheiro podia ser utilizado para comprar melhores roupas, alimentos extras e, no limite, até mesmo para comprar a própria carta de alforria. Ou seja, a "brecha" representou uma flexibilização do sistema que possibilitou aos cativos obter ganhos econômicos.

Analisando as demais alternativas para descartá-las:

  • A está incorreta porque escravizados eram considerados propriedades, não cidadãos, logo não possuíam direitos civis.
  • C está incorreta pois o sistema escravista não previa nem permitia o acesso à educação formal para os cativos.
  • D está incorreta porque, embora houvesse formas de resistência e sincretismo religioso, a "brecha" descrita pelo autor (focada no termo "camponês") refere-se a atividades produtivas e econômicas, e não à liberdade religiosa, que era duramente reprimida.
  • E está incorreta porque não existiam associações profissionais para escravizados (o mais próximo de uma associação permitida eram as irmandades religiosas católicas, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos).

Portanto, a alternativa correta é a que aponta para a obtenção de ganhos econômicos por meio dessa autonomia produtiva.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.