Questão 2 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens1ª aplicação

Preámbulo a las instrucciones para dar cuerda al reloj

Piensa en esto: cuando te regalan un reloj te regalan un pequeño infierno florido, una cadena de rosas, un calabozo de aire. No te dan solamente el reloj, que los cumplas muy felices y esperamos que te dure porque es de buena marca, suizo con áncora de rubíes; no te regalan solamente ese menudo picapedrero que te atarás a la muñeca y pasearás contigo. Te regalan -no lo saben, lo terrible es que no lo saben-, te regalan un nuevo pedazo frágil y precario de ti mismo, algo que es tuyo pero no es tu cuerpo, que hay que atar a tu cuerpo con su correa como un bracito desesperado colgándose de tu muñeca. Te regalan la necesidad de darle cuerda todos los días, la obligación de darle cuerda para que siga siendo un reloj; te regalan la obsesión de atender a la hora exacta en las vitrinas de las joyerías, en el anuncio por la radio, en el servicio telefónico. Te regalan el miedo de perderlo, de que te lo roben, de que se te caiga al suelo y se rompa. Te regalan su marca, y la seguridad de que es una marca mejor que las otras, te regalan la tendencia de comparar tu reloj con los demás relojes. No te regalan un reloj, tú eres el regalado, a ti te ofrecen para el cumpleaños del reloj.

CORTÁZAR, J. Historias de cronopios y de famas. Buenos Aires: Sudamericana, 1963 (fragmento).

Nesse texto, Júlio Cortázar transforma pequenas ações cotidianas em criação literária,
A
denunciando a má qualidade dos relógios modernos em relação aos antigos.
B
apresentando possibilidades de sermos presenteados com um relógio.
convidando o leitor a refletir sobre a coisificação do ser humano.
Resposta correta
D
desafiando o leitor a pensar sobre a efemeridade do tempo.
E
criticando o leitor por ignorar os malefícios do relógio.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar atentamente a mensagem central do fragmento de Julio Cortázar. O texto constrói uma reflexão profunda a partir de uma situação extremamente cotidiana: o ato de presentear alguém com um relógio.

Logo no início, o autor quebra a expectativa positiva de ganhar um presente ao descrevê-lo como "un pequeño infierno florido" (um pequeno inferno florido) e "un calabozo de aire" (um calabouço de ar). A partir daí, ele passa a listar todas as obrigações e preocupações que vêm junto com o objeto: a necessidade de dar corda todos os dias, a obsessão por manter a hora exata, o medo de perdê-lo, de que seja roubado ou quebrado, e a tendência de compará-lo com os relógios dos outros.

O ápice dessa reflexão ocorre na última frase do fragmento: "No te regalan un reloj, tú eres el regalado, a ti te ofrecen para el cumpleaños del reloj." (Não te dão um relógio, você é o presenteado, a você oferecem para o aniversário do relógio).

Aqui, Cortázar promove uma inversão de papéis genial. O ser humano, que deveria ser o dono e controlador do objeto, passa a ser controlado por ele. O relógio ganha status de sujeito, enquanto o ser humano é reduzido a um mero acessório do relógio, vivendo em função de suas manutenções e exigências. Esse fenômeno é o que chamamos de coisificação (ou reificação) do ser humano: a perda da autonomia humana em detrimento da submissão aos objetos e à lógica material.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta porque o texto não critica a qualidade dos relógios modernos; pelo contrário, chega a citar um relógio de "boa marca, suíço com âncora de rubis".
  • B está incorreta pois o foco não é apresentar maneiras de se ganhar um relógio, mas sim as consequências filosóficas e psicológicas de possuir um.
  • C é a correta. O texto é um convite claro à reflexão sobre como nos tornamos escravos dos objetos que possuímos, ilustrando perfeitamente a coisificação do ser humano.
  • D está incorreta porque, embora o relógio meça o tempo, o foco do texto não é a passagem rápida (efemeridade) do tempo, mas a relação de dependência e posse entre o homem e a máquina.
  • E está incorreta porque o tom do texto não é de uma crítica acusatória direta ao leitor por "ignorar" algo, mas sim uma constatação irônica e poética sobre a condição humana moderna.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.