Questão 17 do ENEM 2025Linguagens

ENEM 2025LinguagensBelém

Quando a porta se abriu, ouvi em tom baixo: “Não saia daí até eu voltar!”. E ela se fechou, me deixando ali, no escuro. [...]

Até que acabaram os biscoitos e a água que levamos na mochila. Bateu sede, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu fome, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu vontade de fazer xixi, mas... descobri que tinha um microbanheiro atrás de outra porta branca: um vaso sanitário, um chuveiro que por pouco não estava sobre o vaso e, em frente aos dois, uma pia com um espelho na parede acima dela. Entre o espelho e a pia, uma prateleira com um pote, um tubo de pasta de dentes e uma escova dentro. Tudo no diminutivo.

Quando ter uma empregada que dorme no trabalho passou a ser algo caro e não de muito bom-tom, os corretores de imóveis chamariam esse local da casa de “quarto reversível”, um nome para não chamar o quartinho de quartinho ou do que ele realmente era: um lugar para serviçais, criadas, babás, domésticas, amas, empregadas. Todos esses nomes que deram e dão até hoje a quem é “quase da família”. Um lugar onde estivessem ao alcance do comando de voz, do olhar, ao alcance das mãos... A tempo e hora, vinte e quatro horas por dia.

CRUZ, E. A. Solitária. São Paulo: Cia. das Letras, 2022.

Nesse fragmento, ao refletir sobre aspectos da rotina de trabalho da mãe, a narradora
A
demonstra a solidão do ambiente doméstico.
B
revela uma concepção crítica das relações familiares.
C
questiona as modificações na arquitetura dos imóveis.
D
traça um perfil sensível do comportamento da classe média.
sugere a persistência da divisão de classe no trabalho doméstico.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar atentamente o fragmento do romance Solitária, de Eliana Alves Cruz, e compreender a crítica social que a narradora constrói a partir da descrição do espaço físico.

O texto começa com a descrição de um espaço muito pequeno e restrito: um "quartinho" com um "microbanheiro". A partir dessa descrição física, a narradora passa a refletir sobre o significado social desse cômodo. Ela menciona que, com o tempo, os corretores de imóveis passaram a chamar esse espaço de "quarto reversível". No entanto, ela desmascara esse eufemismo, afirmando que o nome servia apenas para esconder a verdadeira função do cômodo: "um lugar para serviçais, criadas, babás, domésticas, amas, empregadas".

A reflexão se aprofunda quando a narradora aponta a hipocrisia da expressão "quase da família", frequentemente usada para se referir a essas trabalhadoras. Na realidade, o quartinho servia para mantê-las "ao alcance do comando de voz, do olhar, ao alcance das mãos... A tempo e hora, vinte e quatro horas por dia".

Analisando as alternativas à luz dessa interpretação:

A) demonstra a solidão do ambiente doméstico. Incorreta. Embora a narradora relate ter ficado sozinha no escuro, a reflexão central do trecho não é sobre a solidão em si, mas sobre as condições de trabalho e a marginalização da trabalhadora doméstica.

B) revela uma concepção crítica das relações familiares. Incorreta. A crítica não é direcionada às relações familiares da narradora, mas sim às relações de trabalho e poder entre os patrões e as empregadas domésticas (que são ironicamente chamadas de "quase da família").

C) questiona as modificações na arquitetura dos imóveis. Incorreta. A mudança de nome para "quarto reversível" é citada para ilustrar uma tentativa da sociedade de mascarar uma realidade social desigual, e não para criticar a arquitetura em si.

D) traça um perfil sensível do comportamento da classe média. Incorreta. O texto não traça um perfil "sensível" (no sentido de empático ou brando), mas sim uma crítica contundente à exploração e ao controle exercidos pelos patrões sobre as trabalhadoras domésticas.

E) sugere a persistência da divisão de classe no trabalho doméstico. Correta. Ao descrever o quartinho de empregada e a expectativa de disponibilidade em tempo integral ("vinte e quatro horas por dia"), a narradora evidencia como o trabalho doméstico no Brasil ainda carrega fortes marcas de desigualdade e divisão de classes, heranças de um passado escravocrata que persistem nas relações de trabalho contemporâneas.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.