Questão 113 do ENEM 2014Linguagens

ENEM 2014Linguagens1ª aplicação

Quando Deus redimiu da tirania
Da mão do Faraó endurecido
O Povo Hebreu amado, e esclarecido,
Páscoa ficou da redenção o dia.

Páscoa de flores, dia de alegria
Àquele Povo foi tão afligido
O dia, em que por Deus foi redimido;
Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.

Pois mandado pela alta Majestade
Nos remiu de tão triste cativeiro,
Nos livrou de tão vil calamidade.

Quem pode ser senão um verdadeiro Deus,
que veio estirpar desta cidade
O Faraó do povo brasileiro.

DAMASCENO, D. (Org.). Melhores poemas: Gregório de Matos. São Paulo: Globo, 2006.

Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o soneto de Gregório de Matos apresenta temática expressa por
A
visão cética sobre as relações sociais.
B
preocupação com a identidade brasileira.
crítica velada à forma de governo vigente.
Resposta correta
D
reflexão sobre os dogmas do cristianismo.
E
questionamento das práticas pagãs na Bahia.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o soneto de Gregório de Matos e entender a mensagem que ele transmite por trás de suas metáforas e referências bíblicas.

Análise do Poema

O poema começa fazendo uma referência à história bíblica da libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, liderada por Moisés contra a tirania do Faraó. O eu lírico compara essa situação com a realidade da Bahia colonial.

Observe os versos finais:

"Quem pode ser senão um verdadeiro Deus, que veio estirpar desta cidade O Faraó do povo brasileiro."

Aqui, Gregório de Matos utiliza a figura do Faraó como uma metáfora para representar um governante tirano e opressor. Ao chamar o governante de "Faraó do povo brasileiro", o poeta está, na verdade, denunciando os abusos de poder e a opressão sofrida pela população da Bahia na época.

O Contexto Barroco e a Crítica Velada

Gregório de Matos, conhecido como "Boca do Inferno", foi o maior representante da poesia satírica no Barroco brasileiro. Ele frequentemente criticava a sociedade, a igreja e os governantes da Bahia. No entanto, fazer críticas diretas a autoridades poderosas era perigoso.

Por isso, o poeta utiliza uma crítica velada (indireta, disfarçada). Ele se apropria de uma linguagem rebuscada, típica do Barroco, e de imagens religiosas (a Páscoa, a redenção, o Faraó, Deus) para mascarar sua denúncia política. Aparentemente, o poema fala de religião, mas, no fundo, é uma forte crítica à forma de governo vigente.

Análise das Alternativas

  • A) visão cética sobre as relações sociais: Incorreta. O foco do poema não é um ceticismo geral sobre a sociedade, mas sim uma denúncia específica contra a opressão de um governante.
  • B) preocupação com a identidade brasileira: Incorreta. Embora mencione o "povo brasileiro", o objetivo não é discutir a formação de uma identidade nacional, algo que só ganharia força no Romantismo.
  • C) crítica velada à forma de governo vigente: Correta. O poeta usa a metáfora do Faraó para criticar indiretamente o autoritarismo e a tirania do governo colonial na Bahia.
  • D) reflexão sobre os dogmas do cristianismo: Incorreta. As referências cristãs são usadas apenas como instrumento (metáfora) para a crítica política, e não para uma reflexão teológica.
  • E) questionamento das práticas pagãs na Bahia: Incorreta. Não há qualquer menção a práticas pagãs no texto.

Portanto, a temática expressa pelo soneto é a crítica disfarçada aos abusos do governo da época.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.