Questão 10 do ENEM 2018Linguagens

ENEM 2018Linguagens2ª aplicação

Quantos há que os telhados têm vidrosos
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos.

Adeus, praia, adeus, ribeira,
De regatões tabaquista,
Que vende gato por lebre
Querendo enganar a vista.

Nenhum modo de desculpa
Tendes, que valer-vos possa:
Que se o cão entra na igreja,
É porque acha aberta a porta.

GUERRA, G. M. In: LIMA, R. T. Abecê de folclore. São Paulo: Martins Fontes, 2003 (fragmento).

Ao organizar as informações, no processo de construção do texto, o autor estabelece sua intenção comunicativa. Nesse poema, Gregório de Matos explora os ditados populares com o objetivo de
A
enumerar atitudes.
B
descrever costumes.
C
demonstrar sabedoria.
D
recomendar precaução.
criticar comportamentos.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

A questão exige a leitura atenta do poema de Gregório de Matos e o reconhecimento da função dos ditados populares inseridos nos versos.

Primeiramente, vamos identificar os ditados populares presentes no fragmento:

  1. "Quantos há que os telhados têm vidrosos / E deixam de atirar sua pedrada": Faz referência ao provérbio "Quem tem telhado de vidro não atira pedra no do vizinho", que aponta para a hipocrisia de pessoas que julgam os outros, mesmo tendo seus próprios defeitos.
  2. "Que vende gato por lebre / Querendo enganar a vista": Remete à expressão "vender gato por lebre", utilizada para descrever atitudes desonestas, em que alguém engana outra pessoa entregando algo de menor valor no lugar do que foi prometido.
  3. "Que se o cão entra na igreja, / É porque acha aberta a porta": Baseia-se na ideia de que o erro ou o abuso só ocorrem quando há brechas ou conivência, criticando a facilitação de atitudes imorais ou a tentativa de se eximir de culpa.

Gregório de Matos, o maior representante do Barroco no Brasil, ficou conhecido pela alcunha de "Boca do Inferno" justamente por sua vasta produção de poesia satírica. Em suas sátiras, ele não poupava nenhuma classe social, denunciando os vícios, a corrupção, a hipocrisia e a desonestidade da sociedade baiana do século XVII.

Ao incorporar esses ditados populares em seus versos, o eu lírico não está apenas descrevendo costumes ou demonstrando sabedoria popular de forma neutra. A intenção comunicativa por trás dessas expressões é claramente satírica e moralizante. Ele utiliza o senso comum, cristalizado nos provérbios, como uma ferramenta para expor e criticar os comportamentos inadequados e os desvios de caráter das pessoas ao seu redor.

Dessa forma, a alternativa que melhor descreve o objetivo do autor ao explorar os ditados populares é a que aponta para a crítica de comportamentos.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2018 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.