Questão 4 do ENEM 2014Ciências Humanas

ENEM 2014Ciências Humanas2ª aplicação

Quem acompanhasse os debates na Câmara dos Deputados em 1884 poderia ouvir a leitura de uma moção de fazendeiros do Rio de Janeiro: “Ninguém no Brasil sustenta a escravidão pela escravidão, mas não há um só brasileiro que não se oponha aos perigos da desorganização do atual sistema de trabalho”. Livres os negros, as cidades seriam invadidas por “turbas ignaras”, “gente refratária ao trabalho e ávida de ociosidade”. A produção seria destruída e a segurança das famílias estaria ameaçada. Veio a Abolição, o Apocalipse ficou para depois e o Brasil melhorou (ou será que alguém duvida?). Passados dez anos do início do debate em torno das ações afirmativas e do recurso às cotas para facilitar o acesso dos negros às universidades públicas brasileiras, felizmente é possível conferir a consistência dos argumentos apresentados contra essa iniciativa. De saída, veio a advertência de que as cotas exacerbariam a questão racial. Essa ameaça vai completar 18 anos e não se registraram casos significativos de exacerbação.

GASPARI, E. As cotas e a urucubaca. Folha de S. Paulo, 3 jun. 2009.

O argumento elaborado pelo autor sugere que as censuras às cotas raciais são
A
politicamente ignoradas.
B
socialmente justificadas.
C
culturalmente qualificadas.
historicamente equivocadas.
Resposta correta
E
economicamente fundamentadas.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a comparação que o autor do texto faz entre dois momentos distintos da história do Brasil: o debate sobre a abolição da escravidão no final do século XIX e o debate contemporâneo sobre a implementação de cotas raciais nas universidades.

O texto inicia resgatando os argumentos dos fazendeiros em 18841884, que eram contrários à abolição. Eles afirmavam que o fim da escravidão traria o caos, destruiria a produção e ameaçaria a segurança das famílias. No entanto, o autor aponta com ironia que "veio a Abolição, o Apocalipse ficou para depois e o Brasil melhorou". Ou seja, a história provou que os medos e as previsões catastróficas dos escravocratas estavam errados.

Em seguida, o autor traça um paralelo com as críticas feitas às políticas de cotas raciais. Os opositores dessa medida argumentavam que ela iria "exacerbar a questão racial" no país. Contudo, passados anos da implementação dessas políticas, o autor constata que "não se registraram casos significativos de exacerbação".

A lógica construída pelo autor é clara: assim como os argumentos contra a abolição se mostraram falsos com o passar do tempo, os argumentos contra as cotas raciais também não se sustentaram na prática. Ao comparar esses dois cenários, o autor sugere que as censuras às cotas raciais são baseadas em previsões alarmistas que a própria história se encarrega de desmentir.

Analisando as alternativas:

  • A) politicamente ignoradas: Incorreto. O texto mostra que houve um intenso debate político sobre o tema, não que as críticas foram ignoradas.
  • B) socialmente justificadas: Incorreto. O autor está justamente desconstruindo a justificativa dessas críticas.
  • C) culturalmente qualificadas: Incorreto. O texto não atribui qualificação cultural aos argumentos contrários, mas sim aponta suas falhas.
  • D) historicamente equivocadas: Correto. O paralelo histórico demonstra que os argumentos contra as cotas cometem o mesmo erro de previsão que os argumentos contra a abolição cometeram no passado.
  • E) economicamente fundamentadas: Incorreto. O foco do texto não é a fundamentação econômica, mas sim o equívoco histórico das previsões catastróficas.

Portanto, a alternativa correta é a D.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.